Primeira parte

Saara Nousiainen

 

 

Este é um livro para ser lido, pensado e repensado, porque propõe ao movimento espírita mudanças, tanto em paradigmas quanto em metodologias.

O ser humano é avesso a mudanças porque elas causam transtornos, desorganizam tudo, para depois reorganizar em novos formatos. Mas como são indispensáveis para que haja evolução, principalmente em períodos de transição, como o atual, precisam ser enfrentadas com coragem, tranqüilidade e firmeza.

 

A transição está pedindo mudanças

 

É fácil perceber que estamos vivendo o final de uma civilização decadente, mas também já é possível vislumbrar que estamos ensaiando os primeiros passos sobre a ponte que nos levará a uma nova época. Isto pode ser notado em tudo que nos toca e nos cerca.

Também nos meios espíritas há sinais visíveis dessa transição, principalmente nas expectativas que se desenham nos corações de grande número de companheiros, clamando por mudanças, por novos enfoques, assim como também no trabalho de outros tantos, visando mais praticidade e otimização na difícil tarefa de crescimento interior, que reflete a finalidade maior do próprio Espiritismo.

 Segundo relato feito pelo espírito Cícero Pereira, no livro Seara Bendita, psicografado pelo médium Wanderley Soares de Oliveira (MG), ao término do Congresso Espírita Brasileiro de 1999, do qual participaram mais de cinco mil espíritos desencarnados e encarnados, em memorável encontro no mundo espiritual, Bezerra de Menezes lançou as diretrizes para o terceiro período do Espiritismo, a se iniciar com o século XXI.

Os primeiros setenta anos, conforme explicou, constituíram o período da consagração das origens e das bases em que se assentam a Doutrina, as quais lhe conferiram legitimidade.

O segundo período de mais setenta anos foi o tempo da proliferação.

Neste terceiro período, de outros setenta anos, pretende-se a maioridade das idéias espíritas.

Palavras de Bezerra:

“Esse novo tempo deverá conduzir a efeitos salutares a nossa coletividade espírita, criando entre nós, seus adeptos, o período da atitude. O velho discurso sem prática deverá ser substituído por efetiva renovação.”

“O núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem espíritas e assumam designação religiosa formal”.

“A diversidade é uma realidade irremovível da Seara e seria utopia e inexperiência tratá-la como joio. Imprescindível propalar a idéia do ecumenismo afetivo entre os seareiros, para que a cultura da alteridade seja disseminada e praticada no respeito incondicional a todos os segmentos”. (Grifos nossos)

Nas últimas décadas, quando se falava no terceiro milênio, era comum acreditar-se que essa transição seria de curta duração, como se “Deus estalasse os dedos lá em cima” e as coisas acontecessem rapidamente aqui na Terra. Mas, em raciocínios mais acurados, acabou-se entendendo que ela será lenta, obra do tempo e dos esforços dos seres humanos. Tal entendimento veio reforçar o senso de responsabilidade, que deve estar presente na consciência de cada espírita, por este perceber a importância da sua efetiva participação nesse desiderato.

Se estamos assim, ensaiando os primeiros passos sobre a ponte que nos levará a uma nova época, um novo período, devemos lembrar que transição pede mudanças, mas vamos tratar neste livro principalmente daquelas que se referem a alguns enfoques e algumas metodologias vigentes em nosso meio, além da nova diretriz, ou seja, a alteridade.

 

 

Enfoques

 

 

Conforme a codificação do Espiritismo, o mundo de ONTEM era de provas e expiações, com resgates de ações negativas, além dos necessários aprendizados.

Podemos facilmente observar que HOJE já estamos começando a vivenciar o início de um período de transição, continuando, assim, os resgates de ações negativas e os aprendizados, mas acrescidos de um processo de eliminação de “lixos” do inconsciente e dos primeiros passos para um crescimento interior mais pleno.

O mundo de AMANHÃ deverá ser o de regeneração, dando continuidade aos aprendizados e conduzindo os seres a mais elevados patamares evolutivos.

Assim, se estamos caminhando celeremente para a transição, o que é necessário fazer? Permanecer como antes? Ou participar ativamente para que ela se dê mais depressa e de forma mais fácil?

Voltando nossas vistas para os meios espíritas e lembrando que toda transição se faz pelas vias das mudanças, surge naturalmente uma pergunta: o que é necessário mudar?

Certamente as carências são muitas, mas vamos tratar neste capítulo apenas daquelas que se referem a alguns enfoques, lembrando que são eles os sinalizadores que direcionam e orientam as nossas atitudes e ações.

 

VAMOS REFLETIR?

 

Ao longo do tempo as religiões criaram verdadeiro encarceramento psíquico através de três algemas.

A primeira é a EXIGÊNCIA, com regras de conduta e de ações, algumas de acordo com as leis cósmicas, outras para atender seus próprios interesses e prender os fiéis às teias do seu poder.

Pela ótica espírita, a exigência deve ser a que nos faz nossa consciência, onde estão registradas as leis de Deus.

A segunda algema está nos sentimentos de CULPA, nem sempre pertinentes, que foram introduzidos no psiquismo dos cristãos, como instrumento de manipulação e domínio psíquico. É natural que um “fiel”, sentindo-se culpado perante Deus ou diante da igreja, entendida por ele como representante legal da divindade, torne-se elemento frágil e suscetível às mais diversas manipulações.

A terceira algema está nas idéias de PUNIÇÃO, das quais a Igreja Católica e depois as protestantes souberam aproveitar-se para implantar o império do MEDO, através do qual conseguem ainda hoje domínio sobre seus “rebanhos”.

Mas é preciso dizer, a bem da verdade, que esse domínio teve também o seu mérito, a sua razão de ser, por funcionar como freio para muitos que jamais se amoldariam a determinadas atitudes não fosse o medo das represálias divinas, ou mesmo as das próprias igrejas. Hoje, porém, se torna importante analisar a atualidade do cristianismo, do qual nós mesmos herdamos vários condicionamentos.

Podemos perceber, então, como os cristãos estão triplamente algemados às suas religiões. Daí surge a imensa dificuldade de se libertarem dos condicionamentos que foram se enraizando em seus psiquismos, ao longo do tempo e das encarnações, e que podem:

a) gerar complexos, causando “n” problemas de vivência, de convivência e até mesmo de saúde;

b) abrir canais de sintonia com espíritos obsessores.

Acontece também que significativa parcela dos espíritas, em níveis variados, tem igualmente o psiquismo preso a esses condicionamentos, como herança reencarnatória. 

 

Que fazer então para liberar-se?

 

1 – DESENVOLVER SENSO CRÍTICO

2 – MUDAR ALGUNS ENFOQUES

3 – BUSCAR O CRESCIMENTO INTERIOR

 

Desenvolver senso crítico

 

Para desenvolver senso crítico, é necessário, em primeiro lugar, desocupar-se de qualquer tipo de fanatismo, e, lembrando sua condição de ser único, partícipe do grandioso espetáculo da natureza, começar a perceber as próprias capacidades e a grandeza latente escondida na intimidade de si mesmo. Assim, iniciando um processo de individualização, poderá ir abandonando as atitudes grupais, pelas quais todos seguem, sem questionar aqueles que se põem à sua frente “tocando berrante”. Esse é, creio eu, o primeiro e importante passo para desenvolver senso crítico e poder começar a abrir aquelas algemas de que falamos acima.

 

 

Mudanças em alguns enfoques

 

Termos como expiação, carma expiatório, culpa e resignação refletem idéias pesadas, condicionantes, gerando medo e complexos. Se estamos no limiar de um novo tempo, o da regeneração, vemos oportuno mudar os enfoques:

expiação para reajuste;

carma expiatório para carma evolutivo;

culpa para responsabilidade;

resignação para aceitação;

caridade para fraternidade ou atos de amor.

 

Expiação

 

Os termos reajuste e carma evolutivo são mais leves, libertam o ser para os vôos da evolução. Certamente, nas situações em que a vida machuca muito, é válido entender que se trata de expiação, porque essa idéia resguarda a pessoa de sentir revolta, ao entender que não está sendo injustiçada pela vida. O contrário poderia levá-la a descrer da justiça divina.

Mas não é positivo atribuir-se tudo ao carma. Afinal, o grande papel do sofrimento e das dificuldades não é o da mão que castiga, mas o do professor que ensina a ciência do bem-viver.

Muitos companheiros espíritas, de forma equivocada, entendem que tudo que acontece é carma. Se alguém dá uma topada e arranca uma unha do pé, estaria recebendo o retorno das unhas que arrancou, quando fora carrasco do santo ofício em passada encarnação. Entretanto, a topada pode ter acontecido simplesmente por descuido, mero acidente, e até mesmo como recurso da vida, visando algum fim útil. Certamente, pensar em retorno cármico deve ser sempre a última opção, vendo antes na dor e nas dificuldades de qualquer natureza alguma lição que a vida está nos querendo ensinar. Isto é muito mais saudável e proveitoso para nossa evolução.

Há alguns anos, quando colaborava com um grupo espírita que assistia a uns oitenta idosos, pude observar com toda clareza como é importante essa questão dos enfoques.

Os velhinhos, procedentes de uma favela próxima, iam chegando isoladamente ou em grupos, uns silenciosos, outros bulhentos. O ambiente era descontraído e as conversas calcadas em brincadeiras inocentes, logo tomavam conta. Cada um apanhava seu copo de refresco, o pão com manteiga e ia sentar-se para o lanche. Em seguida todos se reuniam no grande salão onde seria realizado o Evangelho, seguido de passe coletivo.

Naquela tarde a leitura de O Evangelho Segundo o Espiritismo versava sobre as penas e expiações, seguida da palavra de alguns espíritos sobre a necessidade de suportá-las com paciência e conformação, visando resgatar erros do passado e antevendo recompensas futuras.

A companheira que lia o Evangelho fazia-o em tom lamentoso, e a sonoridade de sua voz caía pesadamente sobre os psiquismos presentes.

A essa altura os semblantes, antes alegres e descontraídos, mostravam-se soturnos e amargurados, como se estivessem revivendo todas as suas tristezas e aflições. Aquele ar de contentamento fora substituído por expressões de dolorosa conformação.

Deu vontade de levantar e pedir a todos para sorrirem, cantarem e se abraçarem, agradecendo a Deus pela vida, o ar, a natureza e a amizade, esquecendo-se das suas mágoas e dores; dizer-lhes que o ser humano precisa aprender a sentir-se feliz, apesar dos problemas ou sofrimentos. Mas aquela disciplina que aprendemos na Casa Espírita não permitiria tal atitude.

O ambiente era de funeral, os comentários do Evangelho seguiram o mesmo estilo e a prece, pedindo a fluidificação da água, foi vazada em voz que mais parecia um lamento que um pedido.

Os velhinhos foram saindo um a um, mais vergados que antes, sentindo com mais intensidade as suas aflições.

Voltei para casa pensativa. Será esse o papel do Espiritismo?

No livro Reforma Íntima Sem Martírio, psicografado por Wanderley Soares Oliveira,  o espírito Ermance Dufaux, falando sobre o sofrimento, assim se expressa:

“O culto à dor tornou-se uma cultura nos ambientes espíritas. Condicionou-se a idéias de que sofrer é sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar. Portanto, passou-se a compreender a “dor-punitiva” como instrumento de libertação, quando, em verdade, somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas continuam orgulhosas, insensatas, hostis e rebeldes.”

Se nossa humanidade está transitando de mundo de provas e expiações para a condição de regeneração, conforme informam os espíritos, está claro que a nossa mentalidade também precisa ser reformulada, para atender com segurança as necessidades dessa transição. Se ficarmos engessados no pensamento antigo, calcado na temática do sofrimento como necessidade expiatória, como poderemos trabalhar pelo novo modelo?

É natural que prepondere num mundo de provas e expiações a idéia do Consolador, como também é a Verdade que deve preponderar num mundo de regeneração. Mas a própria natureza do Consolador, por um ponto de vista mais saudável, está muito mais nas informações trazidas pela Verdade, do que na conformação ante o sofrimento, visando recompensas futuras.

E é justamente essa mentalidade mais avançada, mais adequada à época, que vem surgindo em alguns segmentos dos meios espíritas.

Aquela idéia de que  “vamos sofrer resignadamente porque receberemos recompensas no mundo espiritual” está começando a mudar para um discurso mais saudável e progressista: “vamos buscar o nosso crescimento interior, desenvolver nossas qualidades superiores e as nossas potencialidades; ajudar a comunidade procurando levar-lhe as verdades espirituais, além de trabalhar visando conscientizá-la quanto à importância da sua participação na transformação do mundo; auxiliar o ser humano a comandar seus estados de espírito, erguer-se e caminhar com os próprios pés”.

É a cruz transformando-se em instrumento de trabalho, de crescimento e de alegria.

Sem a mais remota idéia de tecer críticas aos espíritos que trabalharam na codificação do Espiritismo, devemos lembrar que a maioria deles era procedente da Igreja Católica, por isso em seus enfoques transparecem conceitos que, se podiam ser adequados àquela época, estão carecendo de revisão.

Podemos observar essa tendência em algumas passagens, como no capítulo em que falam sobre as penas e recompensas. A linguagem é bastante semelhante à da Igreja. No capítulo Bem-aventurados os aflitos, Lacordaire diz: “O homem não recebe nenhuma recompensa para esse tipo de coragem, mas Deus lhe reserva seus louros e um lugar glorioso”. Essa idéia de recompensas, louros e um lugar glorioso é adequada a espíritos que ainda não alcançaram certo grau de entendimento e que necessitam desse tipo de muletas para caminhar melhor. Mas hoje, em pleno trânsito para uma nova época, essa velha mentalidade deve começar a ceder lugar à do trabalho pela auto-superação, a auto-ajuda, o crescimento da criatura como ser cósmico. Tal crescimento por si só, deve ser o seu maior fator de felicidade atual e futura. Também se observa aí um toque de vaidade na expectativa de glórias, incompatível com os ensinamentos de Jesus e as idéias transmitidas pelo Espiritismo. E mais adiante Santo Agostinho diz: “O Senhor marcou com seu selo todos os que acreditam nEle”, ou seja, passa a idéia da salvação pela fé.

Como vemos, aqueles espíritos, embora de elevada estirpe, mantiveram, até certo ponto, um linguajar e idéias compatíveis com suas últimas reencarnações ou, quem sabe, preferiram usar aquela linguagem como um degrau para entendimentos mais elevados.

Por isso e também porque o bom senso indica, não se deve entender tudo ao pé da letra.

Sofrer hoje, resignadamente, visando louros e glórias no Céu, demonstra curto entendimento sobre evolução. Um espírito evoluído, pela humildade que lhe é própria, jamais encontrará a felicidade nesses louros e glórias, mas sim em seu próprio estado evolutivo, que é jubilosamente luminoso.

Assim, é hora de começarmos a abandonar aquelas idéias de comprar um lugar no Céu, ou na colônia espiritual Nosso Lar, através da conformação, uma postura estagnante, que ainda voeja nas cabeças de muitos espíritas que entendem ser necessário sofrer para purificar a alma, ou pagar culpas do passado, como se apenas pagar essas culpas fosse o suficiente.

 Certamente, no novo modelo que deverá nortear o mundo de regeneração, serão utilizados caminhos outros, que não apenas a dor, para a evolução dos seres.

A largueza de vistas do Espiritismo mostra ao ser humano que ele deve buscar a felicidade, o bem-estar, o contentamento, desde que não arranhe a ética cósmica, ou seja, as leis de Deus.

Por certo é importante aceitarmos o sofrimento que não pudermos mudar, mas há diferenças fundamentais entre aceitar e conformar-se, como também é indiscutível que podemos, sempre, mudar nossa vida para melhor, começando por melhorar os próprios estados de espírito e as atitudes. E, mesmo aceitando o sofrimento como necessário à evolução, ou como retorno de atos do presente ou do passado, devemos recebê-lo como lição e não como carga.

Por esses novos enfoques podemos também perceber a importância de começarmos a mudar aquele tom que é usado em alguns centros espíritas, o da voz melíflua, chorosa, piegas, orientando para a conformação, colocando como exemplo os sofrimentos de Jesus e acenando com as recompensas futuras. A nova civilização que está para nascer pede discursos diferentes, aproveitando, inclusive, o muito de bom que já existe na área do conhecimento humano, visando o crescimento da criatura em toda a sua plenitude.

 

Culpa

 

Também os sentimentos de culpa, pela ótica espírita, são pertinentes apenas no que dizem respeito ao mal que fazemos aos outros, à comunidade, a nós mesmos e à natureza; mesmo assim, só devem persistir na medida em que nos levem à correção, ao reajuste e ao resgate, quando for o caso. É natural e mesmo útil que esses sentimentos perdurem por algum tempo, após o ato que os gerou, mas sem que isso se transforme num peso inútil a martirizar a alma. Da mesma forma, não cabe ao espírita sentir-se culpado perante Deus, mas sim perante a própria consciência e também diante de quem vitimou, porque o Ser Supremo não se ofende, não se magoa nem se aborrece com nossos erros. As suas leis existem, não para nos cercear ou violentar, mas para nos orientar a evolução.

Reportamo-nos mais uma vez ao espírito Ermance Dufaux, no livro anteriormente citado:

“Freqüentemente existe um trio de sicários da alma que a chicoteiam durante as etapas do amadurecimento, são eles: baixa auto-estima, culpa e medo de errar. Apesar de serem sofrimentos psíquicos, funcionam como emuladores do progresso quando nos habilitamos para gerenciá-los. Assim, a culpa transforma-se em auto-aferição da conduta e freio contra novas quedas, a baixa auto-estima converte-se em capacidade de descobrir valores e o medo de errar promove-se a valoroso arquivo de experiências e desapego de padrões.”

Sentimentos de culpa, portanto, só são válidos como força propulsora para os devidos resgates e o crescimento interior do ser.

Esse é um tema que deveria merecer, principalmente dos palestrantes e dirigentes espíritas, o maior cuidado, particularmente ao tratar de questões como o aborto e o suicídio, para que não agravem ainda mais a situação, lembrando que as pessoas envolvidas em tais ações, certamente, já carregam grandes sofrimentos ou graves pesos conscienciais.

Certa vez um amigo contou que há muitos anos, quando convidado a fazer uma palestra sobre o suicídio num centro espírita, caprichou nas explicações sobre o sofrimento pelo qual passam aqueles que tiram a própria vida. Foi brilhante em seu discurso, mas, ao final, o presidente da casa veio pedir-lhe para consertar os estragos feitos a um casal que assistira à palestra e que havia perdido um filho há poucas semanas, por suicídio. Eles tinham procurado o Espiritismo buscando consolo para sua dor e encontraram ainda mais dor.

Talvez pelo grande número de palestras que alguém faz, ano após ano, acaba se automatizando. O fluxo de palavras desce de forma quase automática dos arquivos mentais, sem passar pelo crivo do bom senso, do questionamento, sem a preocupação de saber se devem ser ditas ou caladas. Muitas vezes os discursos ou as respostas já estão prontinhos e na “ponta da língua”, sem serem tocados pelas asas da razão, sem que se questione se são oportunos e adequados à situação e ao momento. Também a empolgação por estar frente a um público que o ouve atentamente, criando certa relação de poder, pode gerar descuidos altamente prejudiciais.

Muitas das perguntas que são feitas a espíritas abrangem situações com mais de uma vertente. Daí, também, a necessidade de sempre refletir antes de responder e, se não souber com segurança, deve-se ter a humildade de dizê-lo.

Inúmeros são os casos, às vezes muito delicados, de pessoas que ouviram de espíritas que gozam de credibilidade respostas peremptórias às suas perguntas, e essas respostas, posteriormente, foram desmentidas pelos acontecimentos. Além de causar prejuízos a essas pessoas, isso gera descrédito para o próprio Espiritismo.

Por isso é fundamental que aqueles que falam em nome desta doutrina sejam cautelosos no falar, que reflitam antes de dizer algo que possa vir em prejuízo de quem está necessitando de apoio, conhecimento ou ajuda.

Espiritismo não deve ser decorado, mas refletido.

 

 

 

Valores negativos x valores positivos

 

Se estamos transitando para um novo tempo, devemos deixar o sol desse dia nascente começar a iluminar o nosso interior.

 

Muitos vêem o autoconhecimento como a busca aos valores negativos, visando combatê-los. Mas, refletindo mais profundamente, vamos perceber que o mais importante não é a identificação do que há de errado em nós, mas sim o garimpo das nossas qualidades. Se olharmos apenas para o nosso lado escuro, vamos ficar sempre tateando nas sombras. Mas, valorizando nosso lado positivo, estaremos nos auto-incentivando para desenvolvê-lo cada vez mais.

Numa palestra apresentada pela TV Senado, o Professor Aloysio Ivo Urnaw, falando sobre o medo, disse que essa emoção, na sua forma negativa, está no desconhecimento de nós mesmos, da nossa luz interior, e fez uma sugestão para que os presentes começassem a fazer uma relação, por escrito, das suas qualidades, mergulhando profundamente em si mesmos nesse garimpo, afirmando que ficariam extremamente surpreendidos ao descobrirem no mínimo cinqüenta qualidades que nunca haviam pensado em encontrar.

Vamos refletir?

Desde que começamos a viver como seres ativos, passamos a receber um número incalculável de “nãos”. Não mexa nisso, não entre aí, não bata no irmãozinho, não ponha o dedo na tomada, etc.

O “não” é uma força repressora que vai, ao longo dos anos, inibindo a nossa expansividade, ou seja, nos comprime. Esse fato, aliado às críticas que vamos recebendo ao longo da vida, quando os elogios não são suficientes para contrabalançá-las, acaba nos levando a nos desvalorizar e nos desamar. É uma espécie de condicionamento da negatividade. Tudo isso, quando acrescido de antecedentes reencarnatórios, pode gerar condições profundamente negativas para nós e em nós. A nossa força de vida, sempre em ebulição, pode desviar-se ou irromper em outros rumos, passíveis de gerar “n” dificuldades em nosso viver. Também vale lembrar que no mundo cristão estamos milenarmente condicionados a ver apenas nossos “pecados” ou erros, ou seja o nosso lado sombrio, que se avoluma sobre nós em complexos de culpa, criando ambiente favorável à instalação do medo e também de obsessões.

É certo que jamais poderemos acabar com o medo, porque ele faz parte da vida, mas podemos dominá-lo, não permitindo que ele nos domine.

Como conseguir isto? O Professor Urnaw dá uma receita: “Comece o seu garimpo interior, procurando identificar as suas qualidades. Escreva-as numa relação e leia-a vez por outra, a fim de que fique bem consciente da sua luz interior”. Isto ajuda a nos tornarmos mais fortes, mais tranqüilos, abrindo canais para as forças mais altas e luminosas do universo.

Ao contrário do que possa parecer, esse procedimento não é gerador de orgulho, porque, ao passo que vamos identificando nossas qualidades, vamos também percebendo que elas ocorrem não só em nós, mas em todas as pessoas. E podemos começar esse garimpo pelos valores mais óbvios: nossa inteligência, memória e as mais diversas aptidões; nossa honestidade, em maiores ou menores proporções; nossa afetividade, nossa beleza – não exatamente a beleza física, que é efêmera, mas a graça que cada um possui e que muitas vezes vai aumentando com o passar dos anos, ao passo que a beleza física vai declinando.

A propósito dessa beleza-graça, se começarmos a nos olhar no espelho e dizer com convicção “eu sou uma pessoa boa, graciosa, justa, fraterna”; “sou inteligente e capaz”; “sou uma pessoa bonita” etc., essas afirmativas facilitarão a introjeção desses valores, ou melhor, a nossa conscientização de que os possuímos e eles passam a sobrepujar os seus opostos.

Essa viagem interior no intuito de reconhecermos nossas qualidades é uma questão de honestidade, não de vaidade. Perceber quantos focos de luminosidade interior possuímos ajuda a reconstruirmos nossa imagem e isto nos leva a nos admirar e também a admirar os outros.

Quando passamos a nos conhecer, a perceber nossas potencialidades e capacidades, também deixamos de nos incomodar com as críticas e elas servirão apenas para mais profundamente podermos buscar o autoconhecimento. Mas se ficarmos olhando só para o nosso lado escuro, estaremos fadados a andar tateando em nossa própria sombra.

Também devemos nos acostumar a sempre agradecer a Deus pelas nossas qualidades e trabalhar no sentido de aperfeiçoá-las e ampliá-las.

Por que é tão importante essa reconstrução, esse olhar mais lúcido e sem condicionamentos para dentro de nós mesmos? Por que é importante nos valorizarmos?

Se somos herdeiros do Criador, se na essência mais íntima do nosso Espírito somos centelhas de Sua luz, precisamos aprender a nos reconhecer com esses valores, porque esse reconhecimento ajuda a trabalharmos para que eles, os valores superiores, se desenvolvam, sobrepujando os negativos que ainda estão atuantes e em manifestação.

Andando na sombra de nós mesmos, estamos sujeitos a inúmeros perigos, mas se buscarmos a nossa luminosidade interior, valorizando-a como reflexo da luz do Criador, podemos caminhar na luz, ou seja, com mais segurança.

Se você observar a sua sombra no lusco-fusco do amanhecer, verá que ela é imensa, mas, conforme o dia vai clareando e o sol subindo ao zênite, a sua sombra também vai ficando cada vez menor, a seus pés, e você poderá pisá-la, estar-lhe acima. Assim, se o sol da nossa auto-estima estiver no zênite, nossa sombra será mínima, e com relação aos medos, também eles vão diminuindo à medida que vamos descobrindo a nossa luz. Essa reconstrução interior dá segurança íntima, ajudando a dominar o medo, ter coragem de ousar e de não temer o aparente fracasso. E digo aparente, porque mesmo o fracasso é sempre uma experiência de vida, e podemos lembrar aquele famoso poema de Carlos Drummond de Andrade, quando diz de maneira repetitiva e obsessiva que havia uma pedra no caminho, com verdadeira fixação nessa idéia. Mas quando estamos com o nosso sol interior no zênite, podemos dizer: se há uma pedra no meu caminho, vou arrebentá-la, ou passar por cima dela; se não consegui-lo, vou afastá-la e, se isto não for possível, dou uma volta em torno da pedra e sigo em frente.

O fracasso nos serve também como fonte de análise, na busca às causas que o motivaram e que servirão de valiosas lições, quando não nos deixamos deprimir. O nosso lado bom nos dá segurança.

Quanto ao medo, ele também tem aspectos positivos, porque nos leva a refletir, a ter cuidado, a não sermos temerários, por isso é importante que ele exista em nós, nas devidas proporções. Só o medo negativo é ruim em qualquer situação porque traz perturbação mental e nos tolhe os passos. Ele é cruel, é o maior construtor de fracassos.

Assim, podemos andar nas sombras de nós mesmos ou buscar a luz interior, lembrando as orientações de Jesus naquela parábola das virgens que souberam adquirir a sua luz. A auto-reconstrução da nossa imagem interior é tonificante, dá extraordinária energia, segurança e favorece a coragem. Já diziam os antigos romanos que aos corajosos a sorte ajuda.

Não devemos nos ocupar em reconstruir apenas a nossa imagem, mas também as dos nossos desafetos, daqueles com os quais não nos damos bem e dos que consideramos inferiores a nós. Assim, fazendo o mesmo com eles, dedicando-nos a garimpar os seus valores, certamente iremos modificar algo na imagem que deles fazemos. E para dinamizar mais essa garimpagem, podemos desafiar a nós mesmos sobre quantos valores seremos capazes de encontrar em cada um deles. Esse é um exercício sobremodo importante para o nosso crescimento interior, ajudando-nos a desenvolver humildade e alteridade.

 

Resignação

 

A palavra resignação passa uma idéia negativa, de alguém que se arrasta pesada e resignadamente pelos caminhos da vida, carregando sua cruz. Já a palavra aceitação é mais leve. Aceitar as agruras da vida não significa inércia nem sofrimento, mas luta para quem se afeiçoa a ela, possibilitando desenvolver esperança e contentamento, valores fundamentais para quem deseja vencer.

 

 

 

Perdição e salvação

 

 

“Levanta-te e anda”, “Ama teu próximo”, “Sê perfeito”, “Não julgues”, “Perdoa”, são orientações de um MESTRE.

Mas seguir essas orientações é tão difícil que os cristãos, digamos que numa idade espiritual ainda infantil, buscaram a variante da teologia, criando infinitas e inúteis discussões.

Transformaram a figura do Mestre em objeto de adoração e idolatria.

Deturparam a missão de Jesus e a relação dos seus seguidores para com Ele.

Criaram uma relação de piedade pelos Seus sofrimentos, exaltados ao máximo, e de interesse pelo Seu sangue a lavar pecados e salvá-los, e por todo tipo de ajuda que Ele poderia dar-lhes. Transformaram-no no mártir da cruz e no salvador.

 

Esse tipo de relação gerou no Cristianismo:

a) pieguismo doentio;

b) dependência doentia;

c) adoração doentia.

Acontece que alguma parcela do movimento espírita brasileiro herdou algo desses enfoques.

Entretanto, qual a relação que Jesus sempre estimulou?

A do MESTRE para com seus discípulos: aquele que ensina, orienta, aconselha, esclarece e até ampara nos momentos difíceis, mas sem dependências, idolatria, pieguismo ou adoração doentia.

 

VAMOS REFLETIR?

 

Duas idéias incoerentes foram criadas pela Igreja Católica e perduram no seio do Cristianismo. São elas a perdição e a salvação, ou seja, a humanidade estaria perdida por causa do pecado de Adão e Eva, por isso Deus precisara enviar seu filho inocente e puro para ser imolado, a fim de que seu sangue purificasse o ser humano e seu sacrifício o redimisse.

Mas essas idéias não fazem sentido porque, sendo Deus onipotente, o máximo poder do universo, autor das leis universais, poderia simplesmente perdoar os pecados do ser humano, sem necessidade de sacrificar alguém, muito menos um inocente. Aliás, essa perspectiva de sacrificar alguém em nosso lugar é muito cômoda, alimentada pelo egoísmo e hipocrisia humanos. Além disso, seria necessário fazer-se uma idéia muito estúpida sobre Deus para entender que Ele poderia criar leis tão injustas, mediante as quais os erros de alguém seriam resgatados com o sacrifício de outrem.

Essa ótica sobre a necessidade de sacrifícios para aplacar a ira dos deuses vem do paganismo, foi assimilada por Abraão e sua descendência e adotada por Moisés, que realizou um magnífico trabalho de codificação ao longo dos livros do Pentateuco, detalhando e enumerando cada pecado possível de ser cometido pelos descendentes de Israel, com a punição correspondente. Essas punições, em sua maioria, eram de sacrifícios de animais, acreditando-se que o sangue derramado aplacaria a ira de Deus, que, assim apaziguado, paparicado, iria continuar a abençoar o pecador que se redimira.

Outra idéia incongruente que foi colocada na Bíblia, no Antigo Testamento, é a de que Deus se agradava com o cheiro do sangue dos animais imolados. Imagine que tipo de ser seria esse, a gostar de sangue. O escritor Jayme Andrade, no livro O Espiritismo e as Igrejas Reformadas, diz que Jeová, certamente, seria um espírito protetor do povo israelita, uma espécie de deidade tribal, mais ou menos identificada com a índole da raça e que assumia junto ao povo a condição de Deus. Assim se podem explicar as inúmeras absurdidades encontradas na Bíblia com relação a Jeová, ou Senhor, como também o chamavam. Abordamos com mais detalhes esse assunto no livrinho Temor a Deus.

As palavras redenção e salvação, utilizadas nos meios religiosos cristãos, vieram desse contexto, tanto que Jesus foi tido como o “Cordeiro de Deus, imolado para tirar os pecados do mundo”, ou seja, seu sangue teria lavado os pecados de Adão e Eva, os quais maculavam as almas de todos os seus descendentes, redimindo-as, e seu sacrifício salvaria do inferno aqueles que cumprissem fielmente os preceitos das suas religiões.

Esse conceito é tão infantil quanto a mentalidade humana daquela época. As idéias sobre Deus eram absolutamente incompatíveis com o bom senso. O Espiritismo, felizmente, veio colocar as coisas nos seus devidos lugares, mostrando ao homem um enfoque mais real sobre o Criador, as suas leis, a vida. Mas, em razão dos condicionamentos milenares sofridos pelo psiquismo do mundo cristão, até mesmo nos meios espíritas ainda perduram certas estruturas dessa mentalidade.

Num entendimento mais saudável, poderíamos dizer que ninguém está precisando salvar-se porque ninguém está perdido. Estamos todos, sim, precisando evoluir.

Mas, ante esse conceito sobre a inexistência da salvação, como ficaria aquela máxima da codificação “Fora da caridade não há salvação”?

É preciso entender que o sentido dado a essa palavra indubitavelmente não é o mesmo do significado que tem na Bíblia. É preciso observar-se a época e a circunstância em que essa máxima foi dita. Foi uma contraposição ao dogma “Fora da Igreja não há salvação”.

E Kardec, nesse mesmo capítulo, em seus comentários aos textos do Evangelho, em vez da palavra “salvação”, usa “felicidade futura”.Todo o discurso da codificação nos fala em evolução ao longo das reencarnações e isto é incompatível com a idéia da salvação bíblica.

O Espírito Verdade trouxe um universo de informações que foram codificadas e comentadas por Kardec. O conteúdo desse “pacote” de novos conhecimentos é de molde a produzir mudanças nos enfoques e na vivência das pessoas. São mudanças que ocorrem pela conscientização do que é bom e do que não é bom para o presente e o futuro da própria pessoa. É a via certa e mais segura de transformação, de crescimento interior dos seres e da própria coletividade.

Mas, enquanto virmos Jesus como o Salvador, estaremos sempre nos atrelando a Ele, procurando nEle muletas ou mesmo uma “carona” para Nosso Lar, quando não, a mão de uma babá a nos conduzir vida afora. É a anti-evolução.

Podemos também entender que essa questão reflete o nosso momento evolutivo. Quando vemos em Jesus o Salvador, esse tipo de relação se assemelha à da criancinha com aqueles que cuidam dela, quando espera deles e até mesmo exige alimento, cuidados necessários para o seu bem-estar, amor, atenção e as brincadeiras de que gosta.

Pense agora como é a relação do jovem para com o pai, a mãe ou alguém a quem ama e admira profundamente. É bem diferente. É a relação de alguém que procura espelhar-se nas qualidades que admira no outro. Da mesma forma, numa relação menos infantil com Jesus, forçosamente veremos n’Ele o Mestre. E quando nos dedicamos a meditar sobre a Sua grandeza espiritual, serenidade, força, amor e sabedoria, o vínculo que criamos com Ele irá nutrir-nos com esses valores, e poderemos assimilá-los na medida em que a nossa idade sideral permitir.

Quanto à imagem que d’Ele fizeram como o mártir da cruz, quando relembrada vez por outra, de forma correta, pode ajudar na construção do nosso interior, no que diz respeito ao exemplo que nos legou de força moral, estoicismo e aceitação da vontade de Deus; do amor que demonstrou em meio aos mais horríveis sofrimentos, ao perdoar seus algozes; da fidelidade aos princípios esposados e da serenidade nos momentos mais difíceis. Mas convém atentar para o fato de que até mesmo nos piores momentos no drama da crucificação, Jesus foi acima de tudo o Mestre, porque até mesmo ali, de forma muito especial, foi o vívido ensinamento. Não tremeu ante aquele desfecho, não abjurou sua fé nem seus princípios, não se acovardou negando sua missão para livrar-se da cruz. Além de Mestre, foi exemplo vivo de tudo que ensinou.

 

Caridade

 

A aplicação da palavra caridade também precisa ser repensada porque se desgastou pelo mau uso, revestida de características humilhantes para quem é dirigida e de envaidecimento de quem a pratica, situações incompatíveis com as idéias espíritas.

Não seria bem melhor usar os termos fraternidade ou atos de amor?

É verdade que “fazer caridade” tem peso no terreno do merecimento, mas não da evolução, porque esta representa um processo contínuo de crescimento interior, que nada tem a ver com aquela prática.

A evolução, numa de suas vertentes, ocorre mediante aquisição ou desenvolvimento de um sentimento, o amor. Então haverá atos de amor e não de caridade. Praticar esta última pode preparar terreno para o amor, pela percepção do sofrimento alheio, que mobiliza e desenvolve sentimentos fraternos. Mas é importante destacar a diferença entre atos de amor e caridade, na forma como ela é compreendida.

As palavras geram idéias, com reflexos que influenciam posturas e atitudes.

Quando dizemos: “vamos usar de caridade com fulano que está em erro, e orar por ele”, já o estamos diminuindo, ou seja, estamos vendo-o como alguém abaixo de nós na escala de valores, alguém por quem “caridosamente” vamos interceder. Observe que até mesmo esse ato de orar por ele gera uma idéia por onde flui um pouco de desdém. É como se o olhássemos do alto da nossa pretensa superioridade, dispondo-nos a ajudá-lo “caridosamente”, com aquele ar displicente de quem atira, do alto da sua mesa farta, algumas migalhas da sua preciosa atenção, através de uma prece.

Mas se dissermos: “vamos orar por fulano que está em erro, pois ele precisa de ajuda”, estaremos nos aproximando dele para estender-lhe mão amiga, nas vibrações do amor. É uma situação diferente, que faz toda a diferença.

Vê como as palavras condicionam atitudes, posturas e comportamentos?

Outra idéia distorcida que pode ser observada nos meios espíritas refere-se ao calar caridosamente, quando não se concorda com algo ou quando alguém anda se conduzindo mal. Esse tipo de caridade mal compreendida tem causado o afastamento de muitos companheiros, que preferem “passar a mão no boné” e ir embora, em vez de buscarem um diálogo franco e sincero, dentro das linhas do amor. Outros se calam, mas desenvolvem cochichos, comentários dúbios, ou expressões que lançam dúvidas sobre o companheiro em erro, podendo causar muito mais dano do que uma chamada às falas a quem se deixou escorregar, podendo gerar repercussões muito mais negativas do que a mera realidade.

Talvez pelo fato de o Espiritismo nos convidar para um tipo de conduta muitíssimo difícil, cuidamos muitas vezes de exagerar na dose do que entendemos como caridade e, assim, preferimos fazer vista grossa em relação a condutas erradas que podemos observar em torno de nós, entendendo que estamos sendo caridosos.

Na verdade, uma das ações mais difíceis, que pede muita coragem e determinação, é a de conversar com um companheiro para mostrar-lhe que ele está agindo em desacordo com os postulados espíritas. Isto é até mesmo mais difícil do que um pedido de desculpas, desde que o móvel seja exclusivamente o de ajudar o outro em suas dificuldades evolutivas e não contenha qualquer vestígio de vaidade, daquela vaidade que geralmente nos move quando intentamos apontar o erro alheio.

É dificílimo chegar a um companheiro, que talvez seja alguém a quem muito estimamos, para apontar-lhe o erro. Por mais amor e tato que possamos colocar nessa ação, havemos de vê-lo humilhado, talvez revoltado conosco, magoado, ofendido... E certamente tememos ver diminuído o seu apreço, seu afeto por nós. Podemos até mesmo nos questionar se não estamos lhe causando alguma frustração, algum desencanto ou desilusão, podendo isto levá-lo a se desestimular e talvez até mesmo a afastar-se da Casa e quem sabe, do próprio Espiritismo.

Certamente, pensamentos tais podem passar pela nossa cabeça e sentimentos amargos se desenvolverem como conseqüência, levando-nos a desistir do intento ou optar por deixar que o próprio tempo tome conta do caso e leve o companheiro a perceber seus erros e a buscar corrigi-los. Mas se agirmos assim, fugindo ao que a consciência nos pede, estaremos prejudicando nosso irmão, pela nossa omissão.

Quando um companheiro de atividades espíritas passa a desenvolver vaidade, orgulho ou outro valor negativo, ou começa de alguma forma a desviar-se do bom caminho, mas olhando em torno percebe nos circunstantes apenas sorrisos, acaba acreditando que está tudo bem, ou que a sua má conduta não é tão má assim e, com isso, certamente irá caindo mais e mais fundo. Isto acontece porque, por uma idéia distorcida sobre a caridade, ninguém lhe estendeu mão salvadora, ou seja, ninguém o chamou para alertá-lo ou mesmo censurá-lo por seus atos ou atitudes. Será que aqueles companheiros que comodamente fizeram vista grossa também não são parcialmente responsáveis pelas suas quedas ou pelos seus erros?

O companheiro pode até mesmo nem ter percebido seus deslizes por estar envolvido em situações daquele tipo que nos cega, não nos permitindo ver com clareza, a não ser o que possamos entender como justificativas. Devemos nos lembrar da extraordinária força das paixões e do poder que os espíritos atrasados ou perversos exercem sobre a nossa invigilância, e entender que o seareiro em erro pode estar achando que está certo.  E essa convicção se fortalece ao observar apenas sorrisos em torno de si, em tácita aprovação.

Pense na formidável decepção que terá no dia em que lhe “cair a ficha”, mesmo que isto ocorra apenas depois do seu retorno ao mundo espiritual, ao constatar a falta de amor daqueles que o cercavam e que poderiam tê-lo ajudado a retomar o rumo certo.

Cabe lembrar o que disse o espírito S. Luiz em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, itens 19 e 21, que vamos transcrever, para maior facilidade de entendimento.

“Item 19. Como ninguém é perfeito, ninguém tem o direito de repreender o próximo? “Seguramente não, uma vez que cada um deve trabalhar pelo progresso de todos, sobretudo daqueles cuja tutela vos é confiada. Mas é uma razão de fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não pelo prazer de denegrir – como se faz na maior parte do tempo. Nesse último caso a censura é uma maldade; no primeiro é um dever, que a caridade manda cumprir com toda cautela possível. Por fim, a censura que se lança a um outro deve ao mesmo tempo ser dirigida a si mesmo, perguntando-se se não a merece.

[...]

Item 21. Há casos nos quais é útil revelar o mal no outro?

Essa questão é muito delicada, e aqui é preciso fazer um chamado à caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só prejudicam ela mesma, não há utilidade alguma em fazê-las conhecidas. Mas se elas podem causar prejuízo a outros, é preferível o interesse da maioria ao interesse de um só. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever; pois antes caia um homem que vários sejam feitos suas vítimas ou logrados por ele. Nesse caso, é preciso pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.”

Estas explicações de S. Luiz nos levam a uma pergunta: Será que nós, espíritas, temos agido segundo essas orientações?

Certamente, é muito mais difícil, nesse tipo de situações, agir com verdadeiro amor, fazendo o que for necessário para ajudar o companheiro a reencontrar o caminho certo, mesmo que isto possa provocar a diminuição do seu afeto por nós ou desagradar a comunidade em que atuamos.

Também são inúmeros os casos em que certas ações ou determinações do presidente da instituição, da diretoria ou de algum diretor causam distúrbios e até prejuízos ao bom relacionamento ou ao andamento das atividades, levando os tarefeiros a reclamações e comentários entre si, sem coragem de adotar outras medidas, receando gerar desarmonia na casa. Nestes casos é preciso avaliar em que o prejuízo seria maior, se numa conversa franca com o autor ou autores da dificuldade ou nos murmúrios que apenas envenenam o ambiente, talvez com prejuízos ainda mais graves à instituição.

O ser humano tem necessidade de sentir-se incluído em seus grupos sociais, por isso raros companheiros têm coragem de romper com esse “status quo” e indispor-se com a direção da Casa que freqüentam ou tornar-se antipatizados ou tachados de descaridosos, por adotarem atitudes de censura ou questionarem aquilo que entendem estar errado.

Essa cultura do silêncio, que vigora em nossos meios, precisa ser repensada.

 

 

 

Idolatria

 

A humanidade compõe-se de seres com múltiplos aspectos, características, “manhas” conscientes e inconscientes, além de necessidades as mais variadas.

Em razão disso, surgem desvios como a idolatria. Através dela grande parte dos cristãos deixa de perceber a grandeza espiritual de Jesus, transformando sua luminosa figura num ídolo barato, cuja função é servir de bengala, ou melhor, de burro de carga aos interesseiros e àqueles que não querem caminhar com os próprios pés.

Por que idolatramos alguém? Porque esse alguém nos serve de algo. Se fosse apenas pelo prazer que nos dá observar sua grandeza espiritual e receber orientações para o nosso crescimento interior, certamente nossa relação sentimental e emocional com ele seria mais equilibrada, de admiração profunda, afeto e amor. Já a idolatria é diferente, pois gruda o idólatra a seu ídolo, e o primeiro fica sugando do segundo tudo o que consegue, gerando dependência.

No caso de Jesus, as religiões cristãs têm nele uma bengala, a mão forte que conduzirá seus fiéis, não apenas ao Céu, quando chegar a hora, mas principalmente à solução dos mais diversos problemas e à consecução dos mais diferentes desejos.

Em certo programa na televisão, um empresário evangélico afirmava que Jesus ia sempre à sua frente em todos os momentos e era Ele quem lhe facilitava os negócios e ajeitava as coisas quando estavam mal. Era Ele quem lhe dava riqueza material, prestígio, “status” e tudo o mais.

No meios espíritas também podemos encontrar algo de idolatria, não só com relação a Jesus mas também a espíritos como Bezerra de Menezes, André Luiz, Chico Xavier e muitos outros.

Sempre é importante ter-se em vista que a idolatria prende o idólatra à imagem que ele próprio criou visando sua defesa, prazer ou benefício, tornando-o impermeável à realidade, ao verdadeiro sentido da existência ou da missão do seu ídolo.

Por isso, nos meios espíritas, muitos dos que enxergam essa questão com maior clareza se afligem no sentido de mudar a mentalidade estagnante da idolatria e, com isso, inúmeras vezes partem para extremos, minimizando a figura do ídolo e até mesmo refutando-a. Daí nasce o confronto, em que haverá sempre mais perdedores que ganhadores.

É bastante comum nos meios espíritas intitular-se Jesus de “Meigo Nazareno”, demonstrando uma forma equivocada de se entender a grandeza de alguém. Pelo dicionário Aurélio, “meigo” significa amável, afável, bondoso, carinhoso, terno, afetuoso, doce, suave e brando.

Por que Jesus teria de ser meigo? Será que o grandioso amor do Mestre, a sua elevação espiritual, torna-o necessariamente meigo, ou seja, doce, suave e brando? De alguém assim não se esperam atitudes corajosas, viris nem educativas. Talvez esse enfoque também esteja demonstrando um equivocado resquício do Cristianismo, apresentando-O como alguém ludibriável em razão da sua doçura, suavidade e brandura, alguém sempre disposto a relevar, fazer vista grossa, em vez de conduzir e educar. Esse tipo de visão é próprio de quem está sempre querendo levar vantagens, sem assumir suas responsabilidades. No caso dessa fatia dos espíritas a que nos referimos, provavelmente essa forma de perceber Jesus representa herança reencarnatória, ou apenas o não-aprofundamento de reflexões sobre o assunto. Em muitos casos, certamente, essa imagem do “Meigo Nazareno” vem ao encontro dos seus sentimentos, do amor que sentem por Ele, e por não conseguirem vê-Lo como o Mestre, o educador, o condutor. E quando se fala naqueles episódios em que agiu com vigor, entendem que as narrativas foram meramente simbólicas.

De Kardec ninguém diz que é meigo, por ser o seu tipo essencialmente o de um educador. Assim, sendo Jesus o maior dos educadores, por que teria de ser meigo? Não entendemos que esse enfoque possa ser necessariamente prejudicial. Fazemos essas observações apenas para que possamos perceber o quanto ainda temos a refletir.

É fácil então perceber a necessidade de debates amplos e equilibrados em torno dessas e de outras questões, para que todos possam reorganizar suas idéias, já que todos nós, por mais firmes que sejam nossos conceitos, podemos, de repente, observar que algo em nossas posturas pede mudanças. Mas sempre é importante desenvolver esses debates com muita prudência, porque em embates dessa natureza, quando envolvem algo que se possa entender por “pureza doutrinária”, há tendências à radicalização. Os debates devem ser conduzidos com muito cuidado e permanecer sempre tão-somente no terreno das idéias.

 

 

 

 

 

Outro enfoque pedindo mudanças

 

Estamos habituados a entender o Espiritismo como o caminho para a evolução moral e espiritual do ser, e o sofrimento como recurso para sua redenção.

Devido à evolução do conhecimento e das muitas áreas do saber voltadas para beneficiar o ser humano, como também às mudanças solicitadas por esta época de transição, podemos começar a ver no Espiritismo não apenas um caminho religioso, visando à evolução espiritual do ser, mas todo um contexto que pode favorecê-lo com mais equilíbrio, saúde, harmonia, melhor convívio, melhor qualidade de vida e felicidade, enfim, proporcionar-lhe uma vida realmente mais plena.

 Isso pode ser percebido, quando ampliamos os antigos enfoques, acrescentando à idéia de Espiritismo como fator moral-espiritual, outras como “instrumento na busca ao homem integral, ao ser pleno, saudável, de bem com a vida”.

Também o conceito de sofrimento como caminho para a redenção da criatura, podemos passar a perceber como instrumento para o seu despertar, para alavancar seu processo de crescimento interior.

São mudanças de visão que impulsionam nossa evolução.

E há ainda a questão dos companheiros que entendem que o Espiritismo é suficiente para solucionar todos os problemas vivenciais. Ocorre que há casos em que o apoio profissional é imprescindível para minimizar ou eliminar traumas, fobias, complexos e condicionamentos, que poderão refletir-se na saúde física e no equilíbrio psíquico.

É fácil observar como no mundo moderno as dificuldades e os problemas ligados à psique vêm se multiplicando. Nos meios espíritas, em alguns centros, situações dessa natureza são tratadas como sendo tão-somente de origem espiritual, e quando um companheiro está sofrendo de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico, muitas vezes é rotulado como obsediado. Isto reflete absoluta falta de fraternidade e de conhecimento. É preciso entender que inúmeros desses casos resultam de problemas orgânicos, bioquímicos e energéticos, embora possam ter raízes em ocorrências de vidas passadas, como também podem apresentar algum componente espiritual. Nessas situações, por receio de serem rotulados como obsediados, inúmeros seareiros preferem afastar-se dos trabalhos espíritas, a dizer que estão sofrendo de problemas dessa natureza.

Não será oportuno passarmos a valorizar também os aspectos médico e psicológico dos nossos companheiros de atividades espíritas, orientando, quando necessário, para a busca de ajuda profissional? Isto, é claro, sem criar-lhes qualquer sombra de estigma ou rótulo.

 

Como podemos facilmente perceber, é tempo de começarmos a desenvolver mais consciência crítica, mudar os enfoques que devam ser mudados e, nesse contexto, trabalhar intensamente pelo próprio crescimento interior.

 

 

 

 

Buscar o crescimento interior

 

Dizíamos no início deste capítulo que, para nos libertarmos dos condicionamentos que ainda trazemos como herança reencarnatória, seria necessário começarmos a desenvolver mais consciência crítica e mudar alguns enfoques, como acima já ficou demonstrado, além de buscar o crescimento interior.

Algumas instituições espíritas oferecem o “prato feito” para aqueles que as procuram, necessitados de ajuda, uma espécie de “pacote” de obrigações, tais como, freqüentar as palestras, colocar o nome no caderno da desobsessão, receber o passe, beber água fluidificada... e pronto, tudo resolvido. Mas a finalidade do Espiritismo não é essa dos “pacotes” de obrigações. É, acima de tudo, despertar a pessoa para novos paradigmas, para o “Levanta-te e anda”, para a importância do esforço na busca de crescimento interior, do iluminar-se com as luzes do conhecimento superior e vivenciá-las no cotidiano.

Se os espíritos informam que já estamos nos primeiros passos do início da transição de “mundo de provas e expiações” para um novo formato, o de “regeneração”, é fundamental começarmos a questionar sobre o que significa exata e profundamente essa regeneração. Será apenas no sentido moral-espiritual, ou seja, a tão propalada reforma moral, aquela troca de valores negativos por positivos?

Pelo desenvolvimento de idéias novas, novos paradigmas, nova mentalidade nos mais diversos segmentos humanos, que vem ocorrendo nos últimos anos, sem falar no que indicam o bom senso e a lógica dentro dos conceitos espíritas, é importantíssimo começarmos a perceber a infinita abrangência dessa questão.

Se essa regeneração ocorre pela evolução do ser humano, que passa a transitar em mais elevados patamares morais-espirituais, isto forçosamente deverá implicar em evolução também em todos os demais sentidos, principalmente no de seus potenciais interiores. E aí se percebe a necessidade de mudança ou de ampliação do enfoque reforma interior para crescimento interior, que é bem mais abrangente. A reforma é algo que tem começo e fim. Já o crescimento é contínuo. Poderíamos talvez dizer que o crescimento seria a continuação da reforma, servindo-lhe esta de alicerce.

Também os ensinamentos de Jesus, com todas essas mudanças nos enfoques, tomam outra cor. Deixam de representar os eternos chavões com cheiro de religião, de obrigação religiosa ou caminho para a colônia espiritual Nosso Lar, surgindo em toda a sua plenitude como verdades científicas que, obedecidas, promovem o bem-estar da criatura, assim como seu crescimento como ser cósmico e eterno.

Vejamos um exemplo.

Mediante estudos assentados na ciência, podemos entender que o nosso sistema energético é formado pela bioenergia e pela “psicoenergia” ou energia psíquica.

Sendo a bioenergia bastante conhecida, vamos falar sobre a “psicoenergia”, que é produzida pelo pensamento e pelas emoções. Ela é tão sutil que ainda não se consegue detectá-la através de aparelhos, mas sua existência tem sido cientificamente comprovada. São bastante conhecidas aquelas experiências feitas em universidades norte-americanas com plantas que receberam vibrações de amor por grupos de pessoas, e as outras que receberam vibrações de ódio; as primeiras cresceram mais belas e viçosas, enquanto as segundas murcharam e muitas morreram. Igualmente, foram bastante divulgadas aquelas outras realizadas em hospitais americanos, quando parte dos internos recebeu preces de grupos de oração, apresentando significativas melhoras, em relação ao grupo controle.

Temos, assim, comprovações científicas de que o pensamento e a emoção, direcionados (vibrações), alcançam o alvo, gerando efeitos positivos ou negativos, de acordo com o seu teor. Da mesma forma, como tem sido amplamente noticiado, estudos científicos vêm comprovando que o perdão fortalece o sistema imunológico, beneficiando a saúde. Já o Espiritismo nos ensina que, pela lei das afinidades, somos receptivos ao mesmo tipo de energia que geramos. Assim, vivenciando o perdão, a pacificação e o amor pleno, estamos nos beneficiando fisicamente. É como chegamos aos ensinamentos de Jesus através da ciência, ou podemos entender a importância científica dos Seus ensinamentos e começar a perceber, na luz que nos chega do final deste túnel, um novo conceito, o do Cristo cientista; não o de um Jesus que veio para criar uma religião e ser idolatrado, mas o do grande conhecedor das leis cósmicas, que nos ensinou como devemos viver e agir para o nosso próprio bem-estar. Assim, perdoar, amar, ser fraterno e pacífico, são mais que preceitos religiosos; agora nos são mostrados, além das suas implicações cármicas, como fatores de saúde física e psíquica. A “psicoenergia” gerada por esse tipo de emoções e atitudes é de teor positivo e vibra em elevada freqüência, beneficiando infinitamente a quem a produz. Além disso, tais ações ou atitudes são também fatores de prosperidade material, até o ponto em que a programação reencarnatória permita, porque a pessoa que se habitua a desenvolver vibrações de elevado teor apresenta uma presença agradável, que lhe abre muitas portas.

Entendendo assim os ensinamentos do Mestre pelo seu valor prático em nossa vivência, e não apenas pelo aspecto místico, o olhar que lançamos sobre a sua figura se torna mais autêntico, mais real. É quando podemos percebê-Lo, em sua verdadeira grandeza, como o cientista cósmico que veio nos ensinar a ciência do bem-viver, e não como o salvador ou um fundador de religiões.

 

Crescer interiormente equivale a:

 

a) desenvolver virtudes;

b) assimilar aprendizados diversos;

c) adquirir equilíbrio mental, psíquico e emocional;

d) conquistar bom relacionamento consigo mesmo e com os outros;

e) amadurecer;

f) desenvolver maior comando consciente de si mesmo (orgânico, mental e psíquico);

g) desenvolver contentamento;

i) liberar-se de traumas, fobias, medos, ansiedades, frustrações...

Esse crescimento pode ser natural, ocorrendo no bojo do tempo e das experiências reencarnatórias. Mas também pode ser consciente, ou seja, planejado, organizado e autocomandado.

 

Todos conhecemos as grandes dificuldades em realizar nosso crescimento interior.

Sabemos o quanto isto é necessário e prioritário, mas... como é difícil!

 

VAMOS REFLETIR?

 

Não estará a causa primordial dessa dificuldade no COMO?

Como pode isso ser realizado na prática?

Que fazer, de forma objetiva e produtiva?

Quais passos ou providências devem ser tomados e quais os detalhes do que se pode fazer na vivência do cotidiano?

Temos, girando em nossas cabeças, um universo de conceitos os mais belos, atropelando-nos através das páginas dos livros, das mensagens, das palestras e até mesmo pela Internet, em infindáveis exortações para a reforma interior, numa insistência avassaladora, saturando nosso subconsciente com teorias reformadoras. Mas com a incessante repetição dessas exortações, acabamos decorando-as, assim como o papagaio, mas para transformá-las em vivência, para integrá-las à nossa personalidade, é preciso mais que isso.

A geometria é mais fácil de aprender do que a álgebra. Não será por causa do manuseio das figuras geométricas em contraposição às meras fórmulas algébricas, muito mais difíceis de serem aprendidas? Também isto nos mostra a importância de buscarmos métodos mais eficientes, visando transformar as matérias decoradas da reforma interna em vivência.

Todos SABEMOS com exatidão o que precisamos mudar, reformar, melhorar em nós mesmos... só nos falta saber COMO. Falta-nos um esquema, um roteiro claro de procedimentos práticos para materializar passo a passo as intenções que nutrimos sobre a nossa evolução.

Em outro capítulo voltamos a esse assunto, com algumas sugestões práticas.

 

O que entendemos por fraternidade?

 

Não estará a nossa ótica um tanto quanto distorcida, ou talvez obscurecida, atenuando as cobranças que a consciência possa nos fazer, no que se refere aos “talentos” de natureza material que recebemos, ou adquirimos, ao longo da existência?

A narrativa que segue foi inspirada em fatos reais e dá clara noção do que acontece, não só nos meios espíritas, mas no seio de todas as religiões.

“Terminado o almoço de confraternização, os presentes reuniram-se no espaçoso alpendre da casa de praia de Bernardo.

As conversas giravam em torno de temas consumistas. Julio falava sobre as habilidades do arquiteto que estava redecorando sua luxuosa mansão. Marina reclamava das dificuldades para encontrar os materiais necessários aos acabamentos da residência de luxo, que estava construindo em área nobre da cidade.

Marcos, que permanecia calado, finalmente se manifestou, dizendo:

– Vejo que temos aqui sete católicos, dois espíritas, quatro evangélicos, um judeu e um budista. Pergunto: Todos vocês seguem as orientações das suas religiões?

Ante as respostas afirmativas, prosseguiu:

– Não é verdade. As suas religiões pregam a fraternidade, no entanto não vejo nenhum dos presentes praticando esse preceito.

E antes que alguém pudesse contestar, continuou:

– Eu me explico: Você, Julio, se praticasse o que manda a sua religião, em vez de morar numa luxuosa mansão e redecorá-la a cada ano, residiria numa casa mais modesta, embora com todo conforto, e a diferença nesses gastos aplicaria em alguma obra social de ajuda a pessoas necessitadas. Você, Marina, faria o mesmo. O Bernardo, em vez dos dois carros importados que possui, usaria carros nacionais mais baratos. A economia daí resultante daria para alimentar grande número de crianças famintas. E você, Augusto, que é espírita, se realmente acreditasse na reencarnação e no carma, estaria morando num apartamento simples, ao invés de residir naquela luxuosa cobertura. A economia que faria, seria suficiente para assistir grande número de menores em situação de risco. Todos vocês aplicam no consumismo o que lhes sobra, quando esse supérfluo, pelo que preceituam as suas religiões, deveria ser destinado a ajudar o próximo necessitado.

O silêncio tomou conta da sala, calando argumentos que soariam falsos. Finalmente, Luiz, com certa timidez, falou:

Eu sou espírita, como vocês sabem, e procuro cumprir com os postulados da minha doutrina. Sou dos poucos que não gasta com supérfluos. Todos sabem que vivo com muita simplicidade.

– É verdade, mas isso nada significa – replicou Marcus. – Você seria capaz de nos dizer quanto possui em aplicações financeiras?

Luiz baixou o olhar, envergonhado.

– Você tem razão – disse Bernardo, após breve reflexão. – Nós, realmente, não podemos afirmar que seguimos as diretrizes das nossas religiões.

– Mas o Marcos segue – aparteou Jonas. – Sei que ele destina grande parte do que recebe à creche que fundou numa favela.

Passada a surpresa da revelação, algumas vozes perguntaram, em coro:

– Qual é a sua religião, Marcos?

Sorrindo com certa ironia, Marcos respondeu:

– Sou ateu.”

Será que algum de nós, interrogando honestamente a si mesmo, pode afirmar que é verdadeiramente fraterno?

Será que temos nos perguntado por que colaboramos tão pouco com a instituição espírita que freqüentamos, assim como com as atividades beneficentes que ela desenvolve?

Por que será que as instituições espíritas padecem tanto de falta de recursos, encontrando, muitas vezes, dificuldades até mesmo para pagar a conta de energia elétrica?

Essas respostas devem ser sinceramente buscadas na intimidade de cada um de nós, espíritas.

 

 

 

 

 

 

Alteridade

 

Uma palavra que nestes últimos anos vem ganhando espaço em algumas áreas do pensamento humano é alteridade. É o VALOR, por excelência. É o mais importante mecanismo para o crescimento do homem como ser social, que pode levá-lo a interagir pacífica e beneficamente com tudo que o cerca. É, sem dúvida, o veículo capaz de conduzir a humanidade para a tão esperada nova era.

Na questão 621 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta onde estão escritas as leis de Deus, obtendo a seguinte resposta: “Na consciência”.

Refletindo sobre as implicações da prática da alteridade pelos seres humanos, pode-se afirmar que esse é um valor que está escrito em nossas consciências e que somente agora começa a ser descoberto, quando já se podem vislumbrar alguns tênues clarões a indicarem a aurora de um novo tempo. Seu significado reflete uma nova mentalidade, aquela que deverá vigorar na civilização que, certamente, irá transformar a Terra num mundo de regeneração porque se refere à aceitação das diferenças; também significa a não-indiferença, o amar ou ser responsável pelo outro, o aprender com os diferentes, aceitando e respeitando-os em suas diferenças. A propósito, devemos lembrar que todos os seres humanos são diferentes uns dos outros.

A postura alteritária nos leva a ver todos com bons olhos, lembrando as palavras de Jesus: “Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas.” (Mateus 6:22 e 23)

Conforme o Professor Luiz Signates, “A alteridade é uma "estratégia" fundada na ética da fraternidade e da paz; um indicativo de como agir diante dos conflitos do mundo, inclusive os nossos, a fim de que possamos construir o mundo de regeneração, por representar, em sua profundidade, as leis cósmicas de convívio entre os seres. Com relação ao Espiritismo, pode-se dizer que ela chegou como uma reflexão para mostrar um caminho maduro de relacionamento no movimento espírita”.

A pessoa que vivencia a alteridade passa a ser mais fraterna em todos os sentidos, deixando de criticar, julgar, agredir...

As atitudes de não-crítica, não-agressão e não-julgamento deixam o ser em paz consigo mesmo, com a humanidade, com a vida.

Aí você poderá contestar dizendo que atitudes assim tornam a criatura alienada. Mas há grande diferença entre analisar – com vistas ao próprio aprendizado e também no intuito de ajudar, caso seja viável – e julgar, criticar, enviar uma vibração negativa para o errado, seja ele uma pessoa, uma instituição ou uma nação, já que as instituições e as nações são formadas por pessoas.

Por exemplo, você vê alguém caminhando sobre a grama de uma praça para encurtar caminho e pensa: “Que criatura mais sem educação!”.

Nesse ato de criticar intimamente a atitude daquela pessoa, você está gerando uma vibração negativa, ou seja, “psicoenergia” pesada. Parte dela fica em você, seu gerador, e outra parte alcança a pessoa que pisou a grama para cortar caminho. Por outro lado, se apenas registrar o ato errado, mas respeitando a diferença do outro, não criticá-lo, estará fazendo um bem a si mesmo e deixando de fazer mal a outrem. Mas digamos que, agindo com alteridade, ou seja, sentindo-se também responsável por ele, você entende que deve falar-lhe, alertando-o para o erro que está cometendo, fá-lo-á afetuosamente, de forma a não humilhá-lo, encontrando a melhor maneira de ser, junto àquela pessoa, uma presença benéfica, e, caso seja inviável esse alerta, poderá emitir-lhe uma vibração fraterna junto com a idéia de que não se deve pisar a grama.

Quando nos habituamos a tudo criticar, observando os outros por uma ótica não alteritária, nosso foco fica dirigido a eles em tons negativos, vigiando a forma como se conduzem nos menores detalhes e, é claro, colocamos a nós mesmos como parâmetro nessa medição de erros, nesse julgamento contínuo que exercemos com relação a tudo e a todos. Esse fato nos leva a desenvolver de forma contínua uma vibração pesada e antagônica em relação aos outros, porque sempre iremos encontrar neles o que qualificamos como errado. Além disso, estaremos também desenvolvendo nossa vaidade ao compararmos conosco aqueles que consideramos errados, sem falar que essa “psicoenergia” negativa que geramos, alcançando o alvo, poderá induzi-lo mais ainda à prática das ações que nele condenamos. Atuará sobre ele como fator indutor.

Mas, se desenvolvemos a alteridade, respeitando completamente a maneira de ser dos outros, em seus erros, equívocos e até mesmo em suas maldades, lembrando que todos somos seres em diferentes faixas evolutivas, tornamo-nos mais leves, mais de bem com a vida, mais alegres e também mais saudáveis. E se entendermos e aplicarmos verdadeiramente a alteridade, faremos uma prece pelos que estamos observando em erro e lhes direcionaremos vibrações positivas, indutoras de ações mais corretas.

Outro exemplo que pode ser citado é o que acontece em alguns centros e grupos espíritas que aliam suas práticas ao modelo salvacionista, igrejeiro, cultuando espíritos encarnados e desencarnados, ou onde os cânticos fazem parte do que muitos companheiros jocosamente chamam de "missa espírita”. Mas, se observarmos tal fenômeno por enfoque de mais elevada compreensão, podemos entender que há infinito número de pessoas que se abrem para o conhecimento espírita, mas os seus conteúdos psicológicos reencarnatórios ainda se encontram saturados de catolicismo ou protestantismo. São pessoas que se sentem melhor nesse tipo de ligação com o alto; que conseguem maior sintonia com as forças mais elevadas pelas vias que mais fortemente lhes falam ao coração. Será que essas pessoas, aos poucos, com seu próprio amadurecimento, não acabarão migrando para um grau de entendimento mais coerente com a essência do Espiritismo? A natureza não dá saltos e precisamos respeitar essa lei, tanto para nós quanto para os outros.

Nos meios espíritas, urge adotarmos a alteridade como bandeira; aprendermos a nos posicionar sempre influenciados por seus valores e, em vez de dividirmos em nome da “pureza doutrinária”, por que não somarmos em nome do amor?

Mas há um ponto importante a ser percebido em sua totalidade e de forma não distorcida. Diz respeito à crítica. Como o ser humano, ou grande parte da humanidade, tem a tendência de pular de um extremo para o outro, é bem provável que muitos espíritas, ao abraçarem as idéias da alteridade, caiam nesses extremos e passem a adotar a omissão ou a conivência como sendo posicionamentos alteritários.

Ocorre que exercer a faculdade da crítica faz parte do crescimento do ser humano. Só que há dois tipos de crítica, uma é saudável, a outra, não.

Na crítica saudável observamos, analisamos, buscando entender os porquês, confrontando tudo com o que sabemos e o que entendemos que seja o melhor e o mais correto, sempre na intenção do aprendizado e visando roteirizar para nós próprios os melhores modelos. Podemos também realizar essas análises, visando de alguma forma colaborar para que sejam corrigidos ou minimizados quaisquer erros que vamos encontrando em nossas apreciações. Se acrescermos a esse tipo de crítica os valores da alteridade, havemos sempre de encontrar a melhor maneira de ajudar, de ser presenças benéficas onde estivermos, nem que essa ajuda se dê tão somente através de uma prece ou de uma vibração positiva. Isto equivale a uma atmosfera interna de boa vontade, de olhar tudo e a todos com bons olhos, a desenvolver uma vibração positiva. Isto é benéfico para quem age dessa forma, para os que o circundam e também interfere ou interage de forma positiva com as próprias circunstâncias.

Na crítica saudável, podemos dialogar com tranqüilidade, debater nossos pontos de vista, trocar idéias, estar abertos para aprender com os outros, enfim, participar ativamente das situações, sempre visando o bem geral. Isto nos torna seres benéficos para nós mesmos e para os outros, tanto em nosso lar, quanto no ambiente profissional, na sociedade, em nossa comunidade...

No tipo de crítica não-saudável, desenvolvemos uma ambiência interna pesada, do contra, sempre dispostos a encontrar erros em torno de nós. Posturas assim são geradoras de energismo pesado, desagregador, além de fomentar orgulho e vaidade em quem as vivencia.

Mas, se de todo não conseguimos nos conter, ao percebermos que estávamos tecendo críticas ou mesmo comentários negativos sobre alguém, podemos anular os efeitos danosos que atitudes tais podem gerar tanto no criticado quanto em nós, invertendo as ações, ou seja, passando a garimpar os valores de quem estávamos alvejando com nossos pensamentos ou palavras.

Também é digno de nota o fato de que nos meios espíritas é muito fácil desenvolvermos um estado de crítica negativa com relação às religiões e a outros saberes, tendo em vista o universo de conhecimentos transcendentais que o Espiritismo nos proporciona. Esse tipo de procedimento é também gerador de orgulho. Mas uma postura alteritária é niveladora, ajudando a eliminar o orgulho, por nos propiciar entendimentos mais amplos, pelos quais podemos perceber a importância de todos os demais saberes, filosofias e religiões na evolução da humanidade.

Na verdade, a alteridade, em sua essência, deve manifestar-se assim como uma postura ética ou um alicerce interior, sob cujas diretrizes se constrói o nosso pensamento e emoções, dentro de um entendimento mais pleno sobre o ser humano e a própria vida. Assim, lançando um olhar mais sincero e mais livre sobre os circunstantes, aqueles que por qualquer motivo consideramos inferiores a nós, podemos vê-los de forma algo semelhante a como os espíritos superiores nos vêem. Eles não se incomodam nem se surpreendem com as nossas inferioridades, posto que as nossas mazelas não mais encontram eco em seu interior. Esse tipo de percepção representa um gesto interior de luz, que abre portas para o desenvolvimento do amor pleno. É também um caminho para a verdadeira humildade.

Por estas sucintas considerações, é possível perceber a importância da alteridade nos meios espíritas como uma postura de vanguarda, sinalizando um modelo de convívio para o novo tempo, o mundo de regeneração.

Quanto à propalada unificação do pensamento e das práticas espíritas, que, por sua própria natureza, caracterizam-se por tendências libertárias, entendemos ser algo utópico. Assim, muito melhor do que brigar por questiúnculas doutrinárias ou modelos unificados de práticas é abraçarmo-nos fraternalmente, respeitando nossas diferenças, aceitando nossas divergências e juntos trabalharmos mais intensamente pela difusão dos princípios espíritas e pelo bem do ser humano.

E que viva o amor, em todas as suas manifestações.

 

 

 

 

Quando, um dia, os valores da alteridade e do amor fizerem parte da vivência das pessoas, o mundo inteiro vai perceber que a vida é bela e vale a pena viver; que o amor é alegria e vai entender que o Cristo voltou.

 

 

As diferenças

 

Nos meios espíritas, começou-se a discutir essa questão da alteridade, desde que a Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo – ABRADE, lançou a Política de Comunicação Social Espírita – PCSE, apresentando-a como um dos seus valores.

Mais recentemente, desde que essa mesma instituição deu iníci