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Amor ou Paixão
Daniel Valois
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Acontecimentos recentes noticiados pela mídia, agiram como apelo irresistível à busca de explicações que justificassem ou elucidassem o que leva um ser humano a agir contra as Leis da Natureza desprezando por exemplo o instinto materno presente nos animais que alimentam, protegem e preservam suas crias, levando a mãe, não raras vezes, ao sacrifício da própria vida em defesa da prole. Presenciei algumas vezes o desespero de uma galinha, ao pressentir que faltava um pintainho na ninhada, ficara para trás, preso na ramaria, devorado por uma cobra ou outro predador... A mãe girava pelo terreiro, cacarejava, chamava, era uma cena tocante. Dava dó...
Descansava na varanda de nossa casa, no interior, observando as aves de diversas espécies que “mariscavam” na grama, ciscavam pelo terreiro, cantavam... De repente um gavião dá um vôo rasante em direção à ninhada de pintinhos amarelos! A galinha “grita” desesperada e os bichinhos correm para debaixo de suas asas. Ela se eriça toda, fica enorme. Parece um porco-espinho. O galo avança de asas abertas, também para intimidar, e o gavião bate em retirada!
Quem não já observou os cuidados da égua, da vaca, da onça, da cadela, da gata, da leoa, animal feroz, lambendo a cria, acariciando-a a seu modo, ocultando-a em local seguro, vigiando-a contra predadores?
Se o animal que possui instintos, emoções, percepções, sensações age assim, porque o homem a quem Deus ofereceu algo mais. Porque o ser humano que possui entre a estrutura do Sentimento e o impulso de Agir uma outra estrutura que só ele possui – o Pensar. Por que, não obstante, ele age negando Deus de Quem é imagem e semelhança?
Sob nossa ótica só pode haver uma resposta – ainda não aprendeu a AMAR!
Só o desamor pode levar a mãe desesperada a envolver uma criança recém-nascida em plástico, preso a pedaço de madeira, e atira-la às águas de uma represa ou deposita-la numa caixa de sapatos, abandonando-a numa porta qualquer, com o risco de ser devorada por cães famintos. Pior ainda, jogar o recém nascido na lata do lixo! Os animais, se pudessem tomar conhecimento disso, certamente ficariam escandalizados...
Porque o desamor está predominando nos nossos dias?
Um conjunto de fatores podem ser arrolados como predisponentes à insensibilidade e ao sopro de desumanidade vigente neste e no século passado: 1) a possibilidade de uma guerra atômica fulminante para o Planeta; 2) a libertinagem fantasiada de liberdade; 3) a manipulação da juventude por alguns setores da mídia pervertida ; 4) a falta de religiosidade; e 5) o despreparo dos jovens para o matrimônio e, por extensão, para a maternidade/paternidade.
Afirma Joana de Ângelis na obra “Adolescência e Vida”: “As licenças morais da atualidade e os veículos de comunicação pervertidos contribuem para um amadurecimento precoce, indevido, e a irrupção da libido, em razão das provocações audio-visuais, das conversações insanas, que têm sempre por base o sexo em detrimento da sexualidade, do conjunto de valores que se expressam na personalidade, leva os jovens imaturos a relacionamentos inoportunos, por curiosidade ou precipitação, impondo-lhes falsas necessidades, que passam a atormenta-los , seviciando-os emocionalmente, ou empurrando-os para os mecanismos exaustivos da auto-satisfação, com desajustes da função sexual em si mesma agredida e mentalmente mal direcionada”.
O amor está na moda. É mercadoria encontrada em qualquer esquina. Excluídos, paupérrimos, pobres e ricos, todos oferecem essa mercadoria, a preços módicos ou até de graça. As novelas – todas – têm amor como pano de fundo. É sobre o amor que se constrói a trama das novelas, das mini-séries e dos filmes épicos. Mas, até que o “amor” triunfe, muita dor, traições, assassinatos, maldades de todos os tamanhos rolam na telinha, patrocinados por vilões e vilãs , que de tanto aparecerem conquistam fãs e imitadores. E, inexoravelmente, a supremacia do “amor” de novela encontra seu ponto culminante na cama. Não há qualquer propósito puritano no comentário. Nada contra o prazer do intercâmbio heterosexual, realizado por dois seres que se amam. Apenas para ressaltar que aspectos transpessoais importantes, transcendentais e eternos são colocados à margem, salvo raríssimas exceções, com o propósito claro de vender a mensagem: amor, sexo, paixão é tudo a mesma coisa...
Sobre o assunto, bebamos mais uns goles da sabedoria de Joana de Ângelis: “A paixão é como labareda que arde, devora e consome a si mesma pela falta de combustível. O amor é a doce presença da alegria, que envolve as criaturas em harmonias luarizantes e duradouras. Enquanto uma termina sem deixar saudades, o outro prossegue sem abrir lacunas, mesmo quando as circunstâncias não facultam a presença física. A primeira é arrebatadora e breve; o segundo é confortador e permanente”. (Adolescência e Vida)
Assim como o Renascimento baniu as trevas da Idade Média, reacendendo as chamas das artes, da literatura e das múltiplas expressões do belo, um Renascimento ético, poético e romântico está clamando por patrocinadores na mídia, na política, no meio artístico e principalmente na família!
Daniel Valois
Cons. Reg. Espírita de Florianópolis (CRE-1) valois@intergate.com.br