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O Natal e o Sal da Terra Cristiano Fádel
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Com a
cabeça sob as mãos observando a chegada do natal,
tão badalado, caprichosamente festejado,
ansiosamente esperado e pouco analisado. Resisto aos
apelos sociais do natal-senso-comum
papainoelisticamente organizado em torno de um
grande saco de brinquedos. Saio da fila que espera
pacientemente pelo trenó, amedrontado pela
estreiteza das chaminés. Vou entrar caminhando pela
porta da frente. Todos os sapatos já estão
encaixotados e devidamente guardados.
Não vejo Jesus cortando o bolo...
Luto, retiro as mãos, ergo a cabeça, olho em cada
mão e me vejo sofrendo com o meu próprio imobilismo:
não resolverei minhas angústias esperando que venham
exercer o meu papel. Não tenho que buscar Jesus onde
só existe Papai Noel. O Natal pede liberdade a
partir do meu interior. Preciso construi-lo sob o
modelo daquele que deveria ser o tema central da
festa. O natal sou eu porque Jesus veio ao mundo e
ele próprio foi seu mundo. Não esperou. Não queixou.
Agiu. Com ele, renasço todos os dias. Com Jesus, o
Natal transcorre o ano inteiro.
Refletindo sobre o nosso irmão perfeito, me pareceu
diretamente dele ouvir o alerta: “vós sois o sal da
terra”.
O sal equilibra o paladar realçando o doce a partir
da sua salgada ação. Fora do ponto, irá provocar a
rejeição ao prato. O equilíbrio está nas escolhas
das mãos que cozinham: satisfação ou rejeição,
saciedade ou fome, elogio ou repreensão. Por vezes,
o sal está oculto, mas sua ação é sentida no acerto
dos gostos.
O sal da terra é vida!
Daí, iniciei a mudança e aquelas mãos que
desnorteadamente seguravam a cabeça, com ela
construíram um conjunto transformador: o Natal é a
senha para sermos o sal da terra.
Diante das vitrines repletas, ofuscantes, lembrarei
dos lares, ruas e bairros onde o cintilar dos olhos
cedeu lugar ao sofrimento. Inúmeras famílias que não
conseguem desenvolver idéias reativas e imergem num
ambiente de pessimismo. Posso ser a pitada que
tempere com esperança a visão sombria da vida. Muito
mais que falar, devo ser a própria mensagem de
renascimento, encadeando olhares amplamente
luminosos, alimentados pelo motor divino do coração,
vibrando reerguimento.
Com tantos papais noéis, não posso me manter
indiferente aos que não conseguem felicitar os
filhos com um sorriso. Sou eu, o rosto iluminado a
oferecer colo aos pequeninos inocentes, ombro amigo
aos pequeninos adultos; o sorriso sincero de
gratidão nos momentos bons e de paciência nas
vivências dolorosas.
Doando e recebendo presentes, vou lembrar-me dos
incapacitados à troca da mais rápida saudação. As
vidas que se desarmonizam a cada minuto vivido.
Assim, saio com os braços abertos num grande
chamamento por abraços, mais afeto, ouvindo mais do
que falando em qualquer ambiente. Distribuo um
presente para ser repassado rapidamente: a
tolerância.
À mesa farta, jamais negarei a reflexão sobre os
excessos do acúmulo, enquanto milhares estão
desprovidos do básico para a sobrevivência: a força
de vontade. Sairei a encher os pratos com
esclarecimento, reforçando a verdade: estamos sempre
amparados se buscamos apoio. A fome física é o
resultado do pequeno apetite moral por justiça.
Respirando o natal do mercado, lojas cheias, força
propagandística materializada no consumismo, sou o
tempero saudável que modifica as sensações
exacerbadas. Inicio presenteando com humanidade,
embrulhada por mãos amigas estendidas e abertas para
um encontro caloroso e vivificante.
Cristiano Fádel