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Uma palavra difícil de dizer
Saara Nousiainen |
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Manolo andava preocupado. Há alguns dias abrira por acaso a Bíblia e seus olhos caíram sobre um trecho do Apocalipse, cap.3: 16, 17, na mensagem à igreja de Laodicéia (a última das sete igrejas), onde se diz:
“Assim, porque és morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado, e não preciso de cousa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.”
- Será que essa referencia pode ser feita ao movimento espírita? - perguntava a si mesmo com inquietação.
Com essas preocupações na mente, adormeceu e sonhou que era levado por um mentor espiritual a um grande salão, nos confins do Umbral Inferior, onde ficou escondido atrás de uma cortina. Pela fresta viu que o salão estava quase todo ocupado por espíritos trevosos. Pelas conversas entendeu que estavam aguardando a presença do Soberano Gênio das Trevas, para alguma orientação importante. Este entrou escoltado por vários súditos, enquanto os do salão se ajoelhavam à sua passagem.
Subiu numa espécie de altar, perguntando a um assessor:
- Todos os Comandantes dos Setores estão presentes?
A um gesto afirmativo do subordinado, dirigindo-se para a assembléia, falou:
- Vocês sabem quem tem sido nosso pior inimigo nestes últimos tempos... Por isso mandei fazer uma análise detalhada e ouvi os maiores especialistas nas mais diversas áreas...
Olhando fixamente para os presentes, como a lhes passar a firmeza da sua vontade, disse:
- Quero que continuem os ataques sistemáticos contra o Espiritismo, como vem acontecendo há várias décadas, estimulando os prazeres do sexo, a vaidade, as lutas pelo poder, principalmente entre os líderes, médiuns, doutrinadores, oradores e todos os que lidam com o público. E quero que estimulem também, com a máxima intensidade, a divisão entre eles...
Rindo desagradavelmente, disse com voz irônica:
- Nós sabemos que enquanto nos unimos em nome do Mal, eles se desunem em nome do Bem... Por isso são tão fracos.
A platéia riu e gargalhou, até que um rápido aceno do Chefão os fez silenciar.
- Agora, prestem bem atenção – disse o soberano, com voz sibilante. – Nós vamos começar a usar agora uma arma nova, infalível... Nova, agora, porque ela já foi usada com pleno sucesso há muito tempo atrás.
Parou um pouco, fazendo suspense e continuou:
- Nós vamos mudar o rumo das prioridades nos meios espíritas. Vamos estimular discussões em torno de temas como pureza doutrinária, cantar ou não nos centros espíritas; orar em pé ou sentado, de olhos abertos ou fechados, fazer ou não bingos ou assemelhados, enfim, todos os assuntos que podem gerar belas polêmicas, para que não lhes sobre tempo nem energia para cuidarem da nossa maior inimiga... a...
A palavra engasgava na boca do Chefão, enquanto a platéia aguardava, curiosa. Por fim desistiu de pronunciá-la, continuando:
- Quero também que estimulem o estudo da Doutrina deles...
Essa recomendação do Soberano deixou estupefatos todos os presentes, mas ninguém teve coragem de fazer qualquer observação. Rindo desagradavelmente, aquele ser tenebroso continuou:
- Procurem acompanhar meu raciocínio. Os espíritas valorizam muito esses estudos. Então, como não é possível mudarmos essa situação, podemos aproveitá-la a nosso beneficio. Vamos estimular verdadeira febre de estudo. Deixá-los com a cabeça cheia de conceitos. Tão cheia que se esqueçam da nossa maior inimiga, a...
A palavra novamente estava difícil de ser pronunciada. Todos estavam pendurados na fala do Chefão, curiosíssimos para saberem qual era afinal essa terrível inimiga. Com dificuldade, concluiu:
- A... a reforma... i...i...inte...rior.
Os Comandantes olharam-se, quase não acreditando em tanta astúcia na organização da maior estratégia de todos os tempos em sua luta contra a luz. Quando refeitos, todos, sem exceção, atiraram-se ao solo, genuflexos diante do Soberano. Este mandou que se levantassem e continuou:
- Levem os espíritas a acreditarem que ela... a... a nossa inimiga, é tão difícil de ser alcançada que o Criador estabeleceu a reencarnação, como um caminho longo, interminável, para que nesse caminho a criatura tenha todo o tempo da eternidade para atingir aquela... meta.
Desta vez foram palmas estrondosas que estrugiram no ambiente. O Soberano sorriu de novo, mais um esgar do que um sorriso, e continuou:
- Não se esqueçam de que foi essa a arma com que vencemos o cristianismo nos seus primeiros séculos, transformando-o numa organização religiosa, muito preocupada com tudo, menos com a vivência das “tolices” que o Cordeiro ensinou. Foi assim que conseguimos atenuar os seus efeitos, já que era impossível acabar com ele.
Rindo novamente, continuou:
- É isso que vamos fazer agora. Já que é impossível acabar com o Espiritismo, vamos atenuar os seus efeitos.
E ante a estupefação dos presentes, por tão sagaz estratégia, concluiu:
- Outra coisa importante: façam os espíritas acreditarem que a tal da... a... reforma... interior... pode ser substituída por trabalhos de caridade. Eles vão gostar da idéia e vão adotá-la.
Manolo estava tão preocupado com o que ouvira que não percebeu que já estava acordado. Precisava contar aos espíritas o que presenciara, porque entendia não ter apenas sonhado. Estava certo de realmente ter assistido àquela tenebrosa reunião.
No mesmo dia, à noite, foi conversar com os dirigentes do Centro que freqüentava, mas estes não estavam absolutamente interessados em ouvi-lo. Tinham coisas mais importantes a fazer. Estavam organizando o cronograma de estudos para o semestre seguinte.
Aflito, Manolo decidiu que continuaria insistindo, até que lhe fosse dada a devida atenção. Talvez fosse melhor, pensou, começar sua campanha conversando com os companheiros do trabalho mediúnico de que participava. Depois falaria com uns e outros, daquele e de outros Centros, com tantos quantos quisessem ouvi-lo. Estava decidido a fazer tudo que estivesse em suas mãos para alertar os espíritas sobre a necessidade não só da reforma, mas também do crescimento interior.
Afinal, não é essa a finalidade primordial da nossa Doutrina?