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Contos
UMA PALAVRA DIFÍCIL DE DIZER Todo espírita estudioso e observador sabe que estamos vivendo o momento mais importante da história da humanidade, o mais sério e decisivo no que se refere às nossas responsabilidades espirituais. E percebe também que o movimento espírita poderia estar caminhando bem melhor . O que você, caro leitor, entende ser prioritário para o nosso movimento? Discussões em torno de aspectos doutrinários? Unirmo-nos numa organização forte? Preencher aqueles espaços que entendemos dever ocupar nas estatísticas? Provar ao mundo as nossas Verdades? Sermos olhados com mais respeito, visando sairmos da longa marginalização? Estes são indubitavelmente objetivos justos, mas, será que não estão sendo para nós um desvio das metas prioritárias, mais urgentes e reais? A propósito, convém lembrar a mensagem de Jesus à Igreja de Laodicéia (a última das sete igrejas) através de João, em suas visões na ilha de Patmos (Apocalipse, 3: 16, 17 ). “ Assim, porque és morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado, e não preciso de cousa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” Mas é claro que essa advertência foi feita às outras religiões; não a nós... Ou, será que foi?... Inspirando-nos nas informações do espírito Manoel P. de Miranda, no livro Trilhas da Libertação, psicografado por Divaldo Franco e, mediante outras observações, é possível fazer a seguinte narrativa: *************************** “O mais poderoso dos Gênios infernais, intitulado “Soberano Gênio das Trevas”, depois de longas análises do movimento espírita, e de terem sido ouvidos os maiores especialistas nas mais diversas áreas, orientou seus assessores, os Comandantes dos Setores, dizendo: Quero que os ataques sistemáticos contra o Espiritismo sejam muito bem organizados. Primeiro, vamos atacar com todas as possibilidades através do sexo, estimulando-o ao máximo, principalmente entre os líderes, médiuns, doutrinadores, oradores e todos os que lidam com o público. Esse é um velho sistema que sempre dá certo. Além disso, já temos os nossos esquemas prontos. Basta adaptá-los e amplia-los de acordo com as situações. Agora, prestem bem atenção porque vamos usar uma arma nova, infalível... Nova, agora, porque ela já foi usada com pleno sucesso há muito tempo atrás. Nós vamos mudar o rumo das prioridades nos meios espíritas. Vamos estimular discussões em torno de temas como pureza doutrinária, cantar ou não nos centros espíritas, orar em pé ou sentado, de olhos abertos ou fechados, fazer ou não bingos e semelhantes, enfim, todos os temas que podem gerar belas polêmicas, para que não sobre tempo nem energia para cuidar da nossa maior inimiga... a ... A palavra engasgava na boca do chefão, enquanto a platéia aguardava, curiosa. Por fim desistiu de pronunciá-la, continuando: Quero também que estimulem o estudo da Doutrina... Essa recomendação do Soberano deixou estupefatos todos os presentes, mas ninguém teve coragem de fazer qualquer observação. Rindo desagradavelmente, aquele ser tenebroso continuou: - Procurem acompanhar meu raciocínio. Os espíritas valorizam muito esse estudo. Então, se é impossível leva-los a abandoná-lo, que seria o ideal, vamos aproveitar essa característica para nosso benefício. Vamos estimular verdadeira febre de estudo. Deixá-los com a cabeça cheia de conceitos... tão cheia que esqueçam da nossa maior inimiga, a ... A palavra novamente estava difícil de ser pronunciada. Todos estavam pendurados na fala do chefão, curiosíssimos para saberem qual era afinal essa terrível inimiga. Com dificuldade, o chefe concluiu: - A ... reforma... moral. Os Comandantes olharam-se, quase não acreditando em tanta astúcia na organização da maior estratégia de todos os tempos em sua luta contra a luz. Quando refeitos, todos, sem exceção, atiraram-se ao solo, genuflexos diante do Soberano. Este mandou que levantassem e continuou: - Levem os espíritas a acreditarem que ela... a ... nossa inimiga é tão difícil de ser alcançada que o Criador estabeleceu a reencarnação, como um caminho longo, interminável... para que nesse caminho a criatura tenha todo o tempo da eternidade para atingir aquela... meta. Desta vez foram palmas estrondosas que estrugiram no ambiente. O soberano sorriu de novo, mais um esgar do que um sorriso e continuou: - Não se esqueçam de que foi essa a arma com que vencemos o cristianismo nos seus primeiros séculos, transformando-o numa organização religiosa, muito preocupada com tudo menos com a vivência das “tolices” que o Cordeiro ensinou. Foi assim que conseguimos atenuar os seus efeitos, já que era impossível acabar com ele. E, lançando um olhar de aço em torno, concluiu: - É isso que vamos fazer... Já que é impossível acabar com o Espiritismo, vamos atenuar os seus efeitos. - Outra coisa. Façam os espíritas acreditarem que a tal da... a ... reforma... moral... pode ser substituída por estudos e por trabalhos de caridade... Eles vão gostar da idéia... e vão adotá-la.” *************************** Lembramos então aos que dirigem, lideram ou trabalham nesta seara que aquele nome tão difícil de ser pronunciado pelo Soberano Gênio das Trevas, a reforma moral, deve ser a primeira prioridade do movimento espírita; deve ser a nossa bandeira de luta, a maior de todas as batalhas, que precisamos vencer. E, por favor, não diga que esta é uma tarefa pessoal de cada um e não uma atribuição da instituição espírita. A instituição, desde o Centro até as entidades federativas, estas últimas acima de todas, têm o dever de promover com todas as suas possibilidades a reforma moral, ou crescimento interior do seu “rebanho”, já que esta é a principal finalidade do Espiritismo. Não estamos falando do que já se faz. É preciso fazer-se muito mais. Se as nossas imperfeições são condicionamentos que adquirimos ao longo das encarnações, para corrigi-las teremos de passar por um recondicionamento. E isto não se consegue com meras leituras, palestras e exortações. É preciso ação. Uma ação programada e permanente. Uma programação de ações e atitudes que formem um roteiro, capaz de produzir os resultados esperados. O Espiritismo deve ser uma escola técnica, onde a teoria é aplicada em aulas práticas, ou oficinas. Sem falar de alguns esforços localizados, entendemos que o movimento espírita, como um todo, está precisando ser atualizado com urgência. Não, no que toca ao marketing religioso, mas no que diz respeito a ajuda-lo em seu crescimento moral-espiritual. Ver o que há de bom nos meios leigos relacionados a cursos, técnicas, práticas, educação da mente, enfim, tudo sobre auto-ajuda, que possa ser adaptado aos fins propostos. Elaborar sugestões de atividades e técnicas para os Centros poderem efetivamente ajudar seus trabalhadores e demais interessados. Neste momento é fundamental realizar-se uma grande campanha de âmbito nacional, usando todos os meios possíveis para despertar o nosso movimento, a fim de que fuja ao jogo estabelecido pelas Trevas e caminhe firmemente na direção apontada pelo Espírito de Verdade. Será que o fato de saber que Jesus veio em corpo físico e não fluídico vai ajudar alguém a ser menos prepotente e vicioso, ou auxilia-lo a superar seus medos, suas angústias e depressões? Será que acreditar na virgindade de Maria vai tornar alguém pior do que é? Calcule o quanto o movimento espírita já teria ganho em qualidade se os esforços e espaços hoje ocupados com polêmicas tivessem sido usados em campanhas pela reforma interior. Iluminar o intelecto com as claridades da Doutrina Espírita é importantíssimo, mas essas atividades iluminativas jamais deverão ocupar o lugar da prioridade maior, o trabalho pela reforma moral. Observemos que Divaldo Franco, de alguns anos para cá vem batendo nessa tecla da ação programada, ou seja, uso de técnicas de auto-ajuda que auxiliem o homem em seu crescimento. Cremos que é disto que estamos mais precisando: voltar nossas vistas, nossos esforços para essa meta. Fazer do crescimento interior a primeira e maior de todas as prioridades e, tudo isto, buscando recursos que a modernidade oferece, que possam efetivamente ajudar a pessoa, tanto em sua reforma moral, quanto no seu crescimento como ser integral. Não é essa a finalidade primordial da nossa Doutrina? Saara Nousiainen Fortaleza-CE
DEZOITO ANOS, APENAS... Apenas dezoito anos... O corpo estendido no chão, rijo e frio, parecia implorar ajuda. O rosto não expressava dor nem sofrimento, apenas a alucinante surpresa ante a morte inesperada. Em meio à gritaria geral só Hermano permanecia em silêncio, traumatizado com o choque da ocorrência brutal, mas, em pensamento e com toda a emoção, suplicava ajuda a Deus por aquele espírito que acabara de deixar o corpo físico em circunstâncias tão trágicas. Sendo espírita, sabia quão doloroso pode ser uma desencarnação prematura, um “abandonar a raia” antes da época determinada. Conhecia os pais de Anselmo desde os tempos de colégio. Carregara-o nos braços, trocara-lhe as fraldas inúmeras vezes e, agora, aquele anjinho louro transformado em homem, encontrava-se novamente indefeso, inerte e com medo do desconhecido. Quantas vezes buscara alertar seus pais sobre a educação do menino. Lembrava-se com nitidez de certa tarde de domingo em que se entretinha em companhia de Oscar e Lídia, quando Anselmo contava dez anos de idade. - Ainda é tempo - dizia-lhes - de se fazer alguma coisa. Não gosto de me intrometer assim, mas acho que estão muito errados. O menino demonstra sérias tendências negativas e vocês não têm o mínimo pulso com ele. - Você está fazendo tempestade num copo d’água - respondera Lídia. - Meu filho é um amor de menino e tem um coração de ouro. Isso dele não querer estudar é coisa da idade. Conversei longamente com ele ontem sobre isso. Expliquei muitas coisas e ele prometeu que vai voltar a estudar direitinho. - Promessas como essa ele já vem fazendo há dois anos. Não queira esconder o sol com a peneira, Lídia. Anselmo ainda não terminou o segundo ano. Falsifica as notas do boletim, inclusive a assinatura do coordenador. Passa o dia fora de casa e você nem sabe onde... Além disso já é a quarta vez que você o apanha roubando. Isso é muito sério... - O que você quer que eu faça, que bata no menino? Nunca...! Acho uma covardia alguém usar de força contra uma criança indefesa. Poderia criar traumas e revoltas prejudiciais para o resto da vida dele. Filho se cria com amor e conselhos. Em casos de maior necessidade pode-se aplicar um castigo. Aliás, isso nós temos feito. Ainda ontem Oscar proibiu Anselminho de sair com a bicicleta porque ele arrombou a porta do meu guarda-roupa . Hermano sentia-se desanimado. Não adiantava tentar mostrar aos pais de Anselmo que o garoto estava seguindo por um caminho perigoso, mas mesmo assim, continuou: - A criança é um ser que está iniciando mais uma etapa reencarnatória, trazendo no espírito as tendências boas e más, adquiridas e cultivadas no decorrer das vidas passadas e essas tendências é que devem ser corrigidas, quando negativas, e alimentadas, quando positivas. Os pais não são proprietários de seus filhos, mas sim, depositários da responsabilidade de assisti-los durante os anos do recomeço, orientando e conduzindo para o bem e utilizando todas as suas possibilidades para que sua missão seja bem cumprida. Fingindo não perceber o ar de desagrado do casal de amigos, pelo sermão, prosseguiu: - A criança nasce trazendo no inconsciente as predisposições que adquiriu nas vidas passadas. Ela recomeça a vida na matéria através da fase infantil quando, totalmente carente, fica na inteira dependência dos pais. Tudo lhe é estranho e desconhecido. Sua sobrevivência depende totalmente dos cuidados que lhe são dispensados. Aos poucos começa a fazer contato com o exterior, aprendendo a comer, andar, brincar, vestir-se... mas sua experiência ainda não é suficiente para poder conduzir-se sozinha e deliberar sobre os próprios passos. Essa capacidade é aquisição muito lenta, tanto que as leis da terra, muito sabiamente, só conferem maioridade, ou seja, responsabilidade pelos próprios atos, aos 18 anos de idade. O casal de amigos parecia tocado pelas palavras de Hermano, que continuou: - É óbvio que toda criança e, principalmente o adolescente, quer se “soltar”. É um impulso natural da própria evolução, mas se você soltá-la, isto é, se lhe der o direito de se autodirigir, ela se sentirá insegura, perdida e desamparada, embora muito satisfeita com a possibilidade de dar livre expansão aos impulsos do vulcão interior. Se, por outro lado, os pais lhe indicam as normas ou diretrizes pelas quais deve conduzir-se e em caso de desobediência forçam-na a manter-se dentro da linha programada, mesmo que para isso lhe apliquem castigos mais severos, ela poderá sentir-se revoltada mas ao mesmo tempo segura, por perceber nos pais a mão forte e firme perfeitamente capaz de conduzi-la, até que esteja capacitada a caminhar por si mesma. - Ser pai ou mãe – continuou Hermano, após breve silêncio - não pede apenas lutar e sacrificar-se para dar conforto e instrução aos filhos. Pede igualmente prepará-los para a vida, não para dela usufruírem qual parasitas, mas para colaborarem na grande obra de construção de um mundo melhor, mais pacífico, justo e equilibrado. A maioria dos pais não tem pulso para educar seus filhos. Cedem às suas vontades, muitas vezes por puro comodismo, acreditando erroneamente que dessa forma estão lhes demonstrando seu amor. Mas é preciso muito mais amor para aplicar no filho um castigo necessário, do que para fazer-lhe concessões, ou dar-lhe presentes. Quem ama realmente seu filho não mede sacrifícios, nem mesmo que esse sacrifício possa consistir numa possível diminuição do apreço filial por causa de um regime disciplinar mais rigoroso, visando educá-lo verdadeiramente, mas, por incrível que possa parecer, o castigo justo só faz cimentar na alma da criança maior confiança e carinho pelos pais. Amar o filho é procurar fazer dele um ser maduro, equilibrado e disciplinado, pois só assim terá maiores possibilidades para uma vida mais proveitosa e feliz no lar, no trabalho e na sociedade. Não pensem que fazendo todas as vontades de Anselmo, estão assegurando seu amor. Vocês o estão perdendo... Aquelas palavras proféticas vinham agora à mente de Hermano. Realmente, o garoto fora se perdendo cada vez mais, ante a forma como seus pais entendiam o amor aos filhos. Muito cedo começou a beber, criar casos, brigar e roubar, transformando-se no terror do bairro e, agora, era apenas um corpo estendido no chão, rijo e frio, parecendo suplicar por ajuda. Era agora uma criança livre, sem disciplina, sem pais nem amigos, sentindo vibrar em todo o seu ser espiritual o alucinante pavor da morte, do desconhecido... Ouvia, como de muito longe os gritos desesperados da mãe, mas o elo havia sido cortado por uma punhalada e agora ele estava só, acompanhado apenas pelo cortejo das recordações de uma vida errada. Só... dentro da morte, dentro do desconhecido. “O PAI QUE NÃO FAZ SEU FILHO CHORAR, CHORARÁ POR ELE...” (Extraído do livro Um Forró no Umbral, de Saara Nousiainen)
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